Polícia de Curitiba vive inferno astral
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de junho de 1997
Dary Júnior, de Curitiba 
Proteger e servir, eis um lema que anda ameaçado de virar mera retórica na Polícia Civil do Paraná. Os últimos acontecimentos mostram que a corporação enfrenta uma de suas piores crises internas. São agentes que sequestram, matam cidadãos inocentes e até forjam flagrantes para esconder erros gravíssimos. No centro de tudo isso, o secretário de Segurança Pública do Estado, Cândido Martins de Oliveira, perde a paciência, muda toda a cúpula da instituição e avisa: A ordem é para não deixar que policial algum mate ou roube.
Oliveira vive um verdadeiro inferno astral. Maio mal tinha começado e o secretário se deparava com o problema da superlotação nas delegacias de Londrina - o prefeito local, Antonio Belinati (PDT), chegou a decretar estado de emergência. Antes que o mês terminasse, ele recebia a notícia de que um policial de Curitiba tinha sequestrado e matado um empresário. Mais alguns dias e o estudante Rafael Zanella, 20 anos, morre em uma nebulosa operação anti-tráfico. No feriado de Corpus Christi, Oliveira demite o delegado-geral da Polícia Civil no Paraná, Toleb Baleche, e nomeia Artur Braga para o cargo.
Respeitado dentro e fora da polícia, o novo chefe da corporação troca vários delegados e anuncia um tempo de austeridade. Na quinta-feira, 5 de junho, Braga acompanha a divulgação dos laudos da morte de Zanella e ouve o delegado da Corregedoria da Polícia Civil Gilson Algauer afirmar que a operação policial foi uma farsa. Basta de impunidade, disse Braga. No mesmo dia, ele confirma o afastamento de um policial que atropelou e matou um funcionário público quando dirigia um carro roubado em companhia da namorada.
Ministério Público - O procurador de Justiça Dartagnan Abilhoa, coordenador da área criminal do Ministério Público, acredita que uma parceria com a Polícia Civil traria resultados positivos. Ele dá o exemplo da Delegacia Anti-Tóxicos, que é acompanhada pelo promotor Paulo Kessler. Toda vez que há um suspeito de tráfico de drogas, nosso representante na delegacia agiliza o pedido de escuta telefônica, por exemplo, para evitar que uma pessoa seja torturada, conta.
Segundo o procurador, essa atuação conjunta também impede que flagrantes como o do caso Zanella sejam forjados. Me parece que os policiais têm sempre droga em estoque para simular um flagrante. Se não têm, providenciam. Fazem isso porque existe a certeza da impunidade. O Ministério Público vai em cima deles para mudar essa realidade, relata Abilhoa. Apesar disso, ele diz que a presença dos promotores em investigações parecidas com a da morte do estudante não garante a lisura no inquérito: Tudo depende da vontade de apurar.
Abilhoa aposta na repercussão do caso Zanella como arma contra outros erros da Polícia Civil, que teria usado iscas para dar o flagrante e levou estranhos para abordar supostos traficantes. Os policiais dificilmente vão repetir esses procedimentos irregulares. A não ser que façam bem feito, sem dar qualquer indício de armação. É bom lembrar que a morte de Zanella foi um grave equívoco e tentar consertá-la só piorou a situação dos agentes envolvidos, afirma. (Leia continuação desta reportagem na página 2 deste caderno)


