Polícia da Filadélfia amarra brasileiro no pé da mesa
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sábado, 15 de abril de 2000
Por Renan Antunes de Oliveira, correspondente da AE 
Filadélfia, 16 (AE) - O carpinteiro brasileiro Leandro Tiago dos Santos está vivendo escondido em algum lugar dos Estados Unidos, protegido por delegados federais, como testemunha de um caso de abuso da polícia da cidade da Filadélfia, capital da Pensilvânia.
Ao dar queixa na delegacia de North East do roubo de seu carro, cometido por um policial, ele acabou preso e espancado. Ficou 18 horas despido, algemado e deitado no chão da delegacia, com os pés amarrados numa mesa, só sendo libertado após retirar a queixa.
Santos fez a denúncia sem saber que o ladrão era policial. O detetive Ryan Shiver, 24 anos, lotado na delegacia North East, roubou o carro dele, provocando um acidente no qual duas pessoas morreram, em 31 de janeiro.
Colegas da mesma delegacia do detetive atenderam a ocorrência. Eles alteraram a cena do acidente, para protegê-lo - uma lei local prevê prisão perpétua para quem provoque acidentes com carro roubados que resultem em morte.
O FBI, a polícia federal americana, entrou no caso depois de uma denúncia de um agente do Serviço de Imigração, chamado à delegacia para deportar o brasileiro, um imigrante ilegal nos EUA. Ele viu Santos sendo espancado e alertou ao FBI.
Um grupo de agentes federais que já investigava a polícia local (controlada pelo município) aproveitou a denúncia e deu uma batida na delegacia. Santos já havia sido libertado quando eles chegaram, mas os agentes descobriram a trama e prenderam três policiais. O documento assinado por Santos foi invalidado e ele inocentado.
Depois de concluir seu inquérito, o FBI entregou o brasileiro à promotoria pública como testemunha do caso. Agora, ele está sob a custódia dos U.S.Marshals, os delegados federais que são a elite do judiciário americano, que deverão apresentá-lo à Corte Federal dia 28.
O Consulado em Nova York foi notificado e a Imigração legalizou Santos no país.
O incidente produziu dois processos. O primeiro é da Procuradoria federal contra a polícia. O segundo é o de Santos contra a cidade, no qual ele pede US$ 16 milhões de indenização, por violações de direitos civis.
Seus advogados e os da cidade tentam acordo nos bastidores. Nos dois, ele é identificado com um nome falso, para evitar que seja descoberto pela polícia. retranca explica roubo
O incidente que deu origem ao caso começou quando Santos deixou seu carro Pontiac 97 estacionado com a chave na ignição, na frente do bar Nicks Roast Beef, na avenida Cottman.
Um freguês, depois identificado como sendo o detetive Ryan Shiver, roubou o carro e fugiu com ele, levando junto três amigos, todos embriagados. Santos e o dono do bar chamaram a polícia.
Shiver rodou apenas alguns quarteirões, até bater num poste, ferindo-se com gravidade. Dois de seus amigos morreram no local.
Policiais da mesma delegacia de Shiver atenderam a ocorrência. Três horas depois, Santos foi localizado pela polícia, ainda no mesmo bar. Os policiais exigiram que ele assinasse uma declaração de que emprestara o carro ao detetive, o que o isentaria das acusações. Santos negou-se, sendo então preso e espancado, até assinar.
Leandro Tiago dos Santos deu entrevista numa filial da rede de restaurantes Boston Market, na noite de sexta-feira, num bairro da periferia.
O contato com ele foi feito através de advogados e autoridades, com a condição de que suas fotos não fossem publicadas nos Estados Unidos, nem seu esconderijo revelado.
A ficha do homem: 25 anos, goiano, natural de São Luís dos Montes Belos, filho de um pequeno fazendeiro, seu Antero. Estudou o primário na cidade e fez o segundo grau em Goiânia. Em 1996, pagou US$ 4 mil para um guia mexicano e entrou nos EUA ilegalmente, nadando através do Rio Grande, na fronteira com o México.
Uma vez na Filadélfia, a 200 quilômetros de Nova York, ele montou uma pequena empresa de construções. Tinha oito empregados, todos ilegais.
"Estava ganhando quase US$ 1.500 por semana, limpos, mas agora com essa confusão não posso mais trabalhar", queixou-se.
Ele conta seu drama: "Fui preso por duas mulheres (policiais femininas). Elas me levaram para ver o carro (que ele reportara como roubado). Quando disse que era meu, não me deixaram mais sair. Nunca pensei que isso pudesse me acontecer, não sabia que o ladrão era da polícia".
O goiano continua: "Na delegacia, vários policiais começaram a me exigir que dissesse que eu tinha emprestado meu carro, mas eu nunca vi o cara na minha vida. Ele me roubou. Eu não ia mudar a história só para agradá-los. Além do mais, no princípio eu não entendia nada, porque não falo inglês".
O espancamento: "No início, começaram a me dar tapas no rosto. Depois, socos. Um homem botou um saco plástico na minha cabeça e ameaçava me sufocar. Eu continuei apanhando sem entender nada". A cena: "Depois de 10 horas na delegacia, mandaram eu tirar a roupa.
Vampiragem: Fiquei peladão, algemado com as mãos às costas. Aí amarraram meus pés numa mesa e me deixaram deitado no chão". A tentativa de deportação: "Eles chamaram a Imigração e um homem veio, dizendo que eu seria deportado, mas acho que ele é que me salvou chamando o FBI".
"Num determinado momento, eles vieram com uma seringa e tiraram meu sangue. Soube pelo FBI que provavelmente eles iriam usá-lo para botar em algum lugar e depois dizer que eu tinha estado lá, talvez no próprio carro".
Mais sofrimento: "Não me davam água, nem comida. Levei vários golpes de policiais que entravam e saiam da sala. Um deles falava espanhol me dizia para assinar o papel e ir embora. Eu resisti o que pude. Um capitão veio e disse "você assina, você sai". Mas ele também me bateu. Aí, não aguentei mais e assinei".
FBI em cena: "Depois de ser libertado, eu não sabia o que estava acontecendo, até que o FBI apareceu e disse que eu deveria depor em favor deles. Eles me levaram para o hospital, filmaram meu corpo trataram meus ferimentos, me deram roupa e comida".
Novas pressões: "Quando a polícia soube do FBI, a turma deles passou a me perseguir.
Invadiram a casa da minha irmã e do meu cunhado, interrogaram eles por 10 horas, para me achar. Foram no meu emprego e fizeram o patrão me demitir. Queriam me forçar a voltar para o Brasil, para não testemunhar contra eles".
Salvação: "A polícia passou a me perseguir. Descobriram onde eu estava, mas eu levava no bolso o cartão do agente do FBI que cuidava do meu caso. Quando eles queriam me levar, eu mostrava o cartão e telefonava. Eles desistiam na hora. Agora, só o FBI e os marshals sabem onde eu vivo".
Projeto de vida: "Quero que meus advogados façam um acordo com a cidade e me garantam um troco. Por mim, eu voltaria para o Brasil agora mesmo. Estou farto de viver escondido".


