Polícia chama família de economista morto para depor
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terça-feira, 28 de dezembro de 1999
Por Hugo Marques 
Brasília, 28 (AE) - O delegado titular da 10ª Delegacia de Polícia de Brasília, João Kleiber, vai convidar para depor os familiares e funcionários da mansão do economista José Carlos Batista Guimarães, que foi encontrado morto no fundo da piscina de sua residência, no último sábado. O corpo estava amarrado a quatro alteres e duas pedras de jardim. Serão convidados a esposa do economista, Eunícia Guimarães, que é amiga íntima da ex-primeira-dama Rosane Collor, dois filhos do casal e uma sobrinha, que no dia da morte disse à polícia que o economista estava muito endividado.
Caso não aceitem o convite para depor, o delegado João Kleiber não descarta intimar todos os familiares e funcionários da mansão, que fica na Península dos Ministros, no Lago Sul. O economista José Carlos Batista Guimarães foi diretor de Habitação da Caixa Econômica Federal durante o governo de Fernando Collor de Mello.
Suicídio - Hoje o delegado Kleiber afirmou que "o quadro é de suicídio mesmo". Segundo ele, um funcionário da casa informou à polícia que o economista, antes de morrer, solicitou que colocasse as pedras em volta da piscina, sem dizer o que faria com o material. As pernas do economista estavam amarradas a quatro alteres com a mesma corda que estava enrolada ao pescoço e atava também duas grandes pedras de jardim, na altura do peito. Os braços não estavam amarrados, mas apenas envoltos na corda, dando a impressão que "segurava as pedras", segundo o delegado.
Kleiber disse que recebeu hoje um telefonema do Ministério Público informando que há 14 ações tramitando na Justiça Federal que envolvem o nome do economista em denúncias de improbidade administrativa e corrupção durante o período em que exerceu o cargo de diretor de Habitação da CEF. "Qualquer pessoa fica apavorada apenas com uma ação destas, se tiver boa índole", disse o delegado.
Ao lado da piscina, a polícia não encontrou vestígios de luta corporal ou de qualquer tipo de violência física. O laudo cadavérico do Instituto de Medicina Legal, segundo o delegado titular da 10ª. DP, João Kleiber, concluiu que a causa da morte foi a de "asfixia por afogamento". O delegado disse que vai investigar se houve algum tipo de "auxílio", "participação" ou "induzimento" de outras pessoas para que o economista se matasse.
Alguns fatos levaram a polícia a instaurar o inquérito para apurar a morte do economista, que teria sido informada à polícia somente oito horas depois do ocorrido. O delegado foi informado que algumas pessoas, entre elas o ex-presidente Collor
teriam dito que "nada" havia para investigar, por estarem certas que era suicídio. Collor esteve no enterro em Brasília, no domingo. "Só diz que não há nada a investigar quem não dá valor à vida", disse o delegado.
Em um bilhete que estava no criado mudo do quarto do casal, o economista acabou levantando suspeitas sobre sua morte. Ele colocou no plural o verbo "estar", quando se referiu à "covardia" sobre sua atitude, levando a entender que outras pessoas o pressionavam: "Me perdoem a covardia que estão fazendo, esclarecendo que é por livre e espontânea vontade. Estou cansado desta vida, minha missão aqui já terminou. Que Deus abençoe vocês", escreveu José Carlos. Na borda da piscina havia outro bilhete, indicando o local onde estava guardado o primeiro. "Vide bilhete no criado do quarto", escreveu o economista.
O delegado não acredita que o verbo no plural, no bilhete maior, seja alguma forma de o economista deixar recado sobre pressões que estaria recebendo em vida para se matar e não vê isto como indício de suicídio.
"Num momento destes a pessoa pode colocar tudo no plural", disse. A polícia já solicitou exame grafotécnico para comprovar a autoria dos bilhetes. Uma parcela dos brasilienses comenta a morte do economista como resultado de uma suposta maldição que atingiria as pessoas que conviveram com o ex-presidente Collor. Os exemplos citados são as mortes do irmão do ex-presidente, Pedro Collor, da mãe, Leda Collor, do caixa de campanha Paulo César Farias e sua esposa Elma Farias, além de outras pessoas menos conhecidas ligadas à chamada "República de Alagoas".


