Luís Carlos Moreira/Diário do Nordeste/Agência Estado
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)
Para comerSem-terra esticam lençol para tentar aparar alimentos jogados por cima do cerco policial: ajuda da população Um pelotão da PM do Ceará cercou na madrugada de ontem o acampamento de quase mil sem-terra, que há 17 dias estão em frente ao prédio da Secretaria de Desenvolvimento Rural, em Fortaleza. Os PMs impediram a entrada e saída de pessoas do acampamento e não permitiram nem a entrega do café da manhã às famílias. Deputados, jornalistas e um padre denunciaram a violência dos policiais. O deputado Mário Mamede (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Ceará, foi espancado ontem de manhã por um grupo de oficiais, ao tentar furar o bloqueio.
‘‘A operação de cerco aos sem-terra foi articulada pelo governo para impedir uma possível manifestação de protesto durante a solenidade de inauguração do novo Fórum Clóvis Bevilaqua, onde estavam as principais personalidades do Judiciário brasileiro’’, afirmou Mamede. Para ele o governo exagerou na demonstração de força, ao colocar ‘‘mais de mil policiais fortemente armados, tropa de choque e até rabecões’’ no local’’.
AgressõesQuando registravam cenas da violência, o jornalista Herman Hess e o cinegrafista Fabiano Moreira, da TV Verdes Mares, foram agredidos. Até o padre Geraldo da Silveira, da Igreja de São Gerardo, perto do acampamento, foi afastado asperamente quando entregava um pacote para os manifestantes. ‘‘Isto é um absurdo, uma desumanidade’’, protestou o padre.
Na avaliação do padre, a polícia extrapolou e, ‘‘na confusão, bateu indiscriminadamente, arrastando mulheres pelos cabelos, nem os velhos e crianças escaparam. Os oficiais responsáveis pela operação impediram a distribuição de um café, fornecido pela CUT, para os sem-terra’’, disse o deputado Eudoro Santana (PPB).
O deputado contou que moradores do local e representantes das pastorais passaram a jogar biscoitos e pães para os sem-terra. Santana transmitiu ontem, por telefone, um relatório sobre os acontecimentos para a Anistia Internacional, para quem denunciou ‘‘um estado de perseguição e terror no Cearᒒ.
O governador Tasso Jereissatti (PSDB) disse ter ordenado o cerco da PM ao acampamento porque os manifestantes estariam ‘‘tumultuando’’ a normalidade pública, prejudicando o comércio e assustando os moradores. ‘‘Não admitirei que ações irresponsáveis de uma meia dúzia de baderneiros profissionais venha a comprometer a tranquilidade e a segurança da população’’, afirmou.
Para Jereissati, o movimento está identificado com uma ‘‘orquestração nacional’’. ‘‘Os agitadores que estiveram nas manifestações dos policiais em julho são os mesmos que estão insuflando os sem-terra’’, completou.
O chefe da Casa Militar do Governo, coronel Sebastião Leandro, garantiu que ‘‘em nenhum momento a polícia agrediu o deputado Mário Mamede ou qualquer outro político’’. ‘‘Agimos com rigor, para evitar um confronto mais grave’’.

mockup