Polícia apresenta suspeito de homicídios no centro
Homem de 21 anos teve a prisão decretada por crimes ocorridos no Bosque e na praça Rocha Pombo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de outubro de 2019
Homem de 21 anos teve a prisão decretada por crimes ocorridos no Bosque e na praça Rocha Pombo
Rafael Machado e Isabela Fleischmann - Reportagem Local 
A Polícia Civil apresentou nesta quarta-feira (23) Fernando Inácio Andrade, 21 anos, suspeito pelos homicídios de Hannan Silva, 21, encontrado morto na terça (22) na praça Rocha Pombo, e Fábio Ábila, 49, cujo corpo foi localizado no Bosque Central no dia 14 de outubro.

Inicialmente, o suspeito foi preso apenas pelo segundo crime, mas, após um novo interrogatório, segundo a polícia, acabou confessando ser o responsável também pela morte no Bosque. Ele irá responder por dois latrocínios (roubos seguidos de morte).
Andrade passou por audiência de custódia na VEP (Vara de Execuções Penais) e teve a prisão preventiva decretada. A decisão foi do juiz Luiz Valério dos Santos. O suspeito foi interrogado pelo delegado William Douglas Soares, do setor de Furtos e Roubos da 10ª SDP (Subdivisão Policial), e confessou ter matado Hannan na Rocha Pombo, mas alegou legítima defesa.
"Eu estava usando a minha droga lá (praça Rocha Pombo) quando o cara chegou querendo fazer sexo oral. Depois que tudo começou, ele pegou no meu braço e me apertou. Começamos a brigar, dei um mata-leão (golpe), um soco e fiquei até morrer. Ele queria me matar", alegou o suspeito em depoimento. Andrade foi preso na frente da Biblioteca Municipal. Ele não tem advogado constituído.
O suspeito era conhecido na região do centro, frequentemente visto por quem passava pelo local à noite, abordando pessoas. Andrade já tinha sido condenado por furto em dezembro de 2018 pela 3ª Vara Criminal de Maringá (Noroeste), respondendo com oito meses em regime aberto.
De acordo com o delegado, imagens de câmeras de videomonitoramento da Guarda Municipal instaladas na Rocha Pombo ajudaram a identificá-lo. "As gravações mostram o suspeito andando pela avenida Rio de Janeiro vestido com a mesma camiseta que apreendemos e ele já na praça atacando a vítima", disse.
Hannan era funcionário de um cinema da zona leste e terminava o expediente às 23h, quando, segundo amigos e familiares, voltava a pé para casa. Na madrugada de terça (22), foi dado como desaparecido. Policiais militares que patrulhavam a área central abordaram na rua Rio Grande do Norte um morador de rua, que depois foi identificado como o próprio suspeito, com o celular do jovem, um iPhone 6.
Os agentes desconfiaram do rapaz e tiraram uma foto dele, o que acabou sendo decisivo para a identificação. Os PMs acessaram o telefone e levaram o aparelho até a família de Silva. O corpo da vítima foi encontrado no início da tarde de terça na Rocha Pombo. Tanto Hannan quanto Ábila foram localizados com sinais de estrangulamento.
Nas redes sociais, amigos de Hannan rechaçaram a versão do suspeito do crime de que o estudante teria procurado esse encontro. "Não podemos afirmar, pelo menos até o atual momento das investigações, que a vítima foi morta exclusivamente por causa da sua eventual opção sexual. O Fernando confessou que é garoto de programa de maneira muito clara", afirmou Soares.
"Os dois crimes têm muitas semelhanças. O assassino tinha a intenção de roubar as vítimas e por isso está sendo enquadrado pelo latrocínio, mas ficou evidente que escolhia um perfil bem definido e as levava para locais ermos, como o Bosque e a Rocha Pombo", observou o delegado-chefe da 10ª SDP, Osmir Neves.
O major Nelson Villa, comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar, prometeu reforço no patrulhamento na área central. O inquérito policial deve ser concluído em até dez dias.
ASSOCIAÇÕES LGBT PEDEM QUALIFICAÇÃO POR HOMOFOBIA
Hannan Silva e Fábio Ábila entram nos dados com pelo menos outros cinco LGBTs vítimas de latrocínio desde 2014 em Londrina. Todas as mortes com algum sinal de crueldade: estrangulamento, degolamento ou espancamento. Os casos foram registrados em encontros casuais. Situações similares às de Hannan e Ábila, conforme a linha de investigação da Polícia Civil.
Poliana Santos é integrante do Coletivo Movimento Construção, que trabalha questões LGBTI+ em Londrina. Ela afirma que os assassinatos ocorridos nos últimos dias são “brutais e com requinte de ódio”. Mas, para o delegado Osmir Neves, “não se trata de crimes de ódio em virtude da orientação sexual, mas o criminoso se valeu da circunstância para consumar os crimes”.
Para Neves, é possível que exista subnotificação de delitos em que os crimes não resultem em assassinatos, já que muitos podem se negar a denunciar em decorrência do anonimato dessas condições de encontros. “A recomendação é que sejam evitados encontros casuais em locais ermos independentemente da orientação sexual”, afirmou.
V.R, integrante do Coletivo Scarlett O’Hara, afirma que os crimes deveriam ser categorizados com motivação homofóbica porque “qualquer crime que esteja relacionado a um crime passional com pessoas LGBT nesses guetos são crimes de LGBTfobia estrutural”. Para ele, pessoas nessa categoria acabam sendo empurradas para locais clandestinos com exposição a riscos porque a demonstração de afeto delas não é aceita socialmente. “A pessoa não precisa ser assassinada necessariamente com gritos de ódio em relação a ela ser LGBT para ser homofobia”, disse.
O advogado Henrique Barroso, membro do Fórum LGBT+ da cidade, pede que ainda que a linha de latrocínio seja seguida nos dois crimes recentes, o motivo torpe deveria ser acrescido como qualificador, já que “a escolha da vítima se deu em virtude da sua aparência LGBT+”. Barroso lembra que recente julgamento do STF (Supremo Tribunal Federal) declarou que a homofobia deve ser enquadrada como motivo torpe.
Integrante da associação Mães Pela Diversidade, Mara Damas conta que “toda mãe já teme pelo filho. Mas, quando o filho é LGBT, o temor é dobrado”. A mãe de LGBTs Sônia Camargo lembra que a violência natural da sociedade se agrava quando pessoas nessa categoria são expostas. “Quando minha filha LGBT sai de casa, fico temerosa”, contou.
Para ela, o suspeito não respeitou Hannan nem na morte, já que atribuiu a ele uma culpa por ter procurado a situação. “Nós, mães, vamos lutar sempre por nossos filhos e queremos que outras mães se juntem, não queremos que nossos filhos sejam mortos, queremos que eles tenham direitos como cidadãos”.


