Rio, 01 (AE) - Não teve negociação: o painel com imagem de Nossa Senhora da Boa Esperança e uma cruz, que seriam colocados em carros alegóricos da escola de samba Unidos da Tijuca, foram apreendidos hoje à tarde pela polícia. A agremiação é acusada de crime de "vilipêndio ao sentimento religioso". A ordem de apreensão do material foi do secretário de Segurança Pública do RJ, Josias Quintal. Segundo o delegado da 4ª DP, Carlos Heitor Sanches, Josias recebeu um documento do arcebispo do Rio, D. Eugenio Salles, reclamando das alegorias.
O carnavalesco da escola, Chico Spinosa, depôs na 4ª DP (Praça da República) e declarou que em nenhum momento houve intenção de desrespeitar os símbolos religiosos. "Me senti incompreendido, agredido; me senti brasileiro nativo, colonizado", reclamou. Spinosa contou que estava no barracão da escola, na zona portuária, pintando os sapatos dos integrantes da comissão de frente quando chegou a polícia para levar as alegorias. Ele levou um susto.
"Propus este tema na maior inocência, em nenhum momento pensei em fazer algo agressivo", argumentou. "A Igreja tinha tomado outro caminho, com o surgimento do espaço carismático, com as pessoas cantando alegremente em templos e estádios, não sei o que acontece e qual a explicação para isto", disse o carnavalesco. Spinosa deverá comparecer ao juizado especial criminal para prestar outros esclarecimentos.
O enredo "Terra dos Papagaios...Navegar foi preciso", descreve a viagem de Pedro álvares Cabral e a primeira semana dos portugueses no País, terminando com a primeira missa. A cruz
de 3m por 1,5m estaria no sexto carro, que lembra a cerimônia religiosa. O quadro assinado pelo pintor Victor Meirelles, datado de 1860, serviu de inspiração para o carnavalesco. A santa, sairia no segundo carro, uma representação da expedição de Cabral. D. Manuel presentou a expedição de Cabral com uma imagem de Nossa Senhora da Boa Esperança.
A escola ainda não decidiu o que fará sem as duas peças que foram apreendidas. O carnavalesco acha que os carros alegóricos deveriam desfilar na avenida Marquês de Sapucaí, na segunda-feira, incompletos. "Acho melhor o espaço vazio, vai funcionar como estímulo para a esperança de todos nós", disse, acrescentando que "quem sai perdendo é o povo".
Não é a primeira vez que Spinosa se vê envolvido em polêmica. No ano passado, quando era carnavalesco da escola de samba paulista Vai-Vai ele teve problemas com a comunidade judaica, que protestou contra um carro que tinha a cruz suástica. O símbolo saiu com uma tarja preta e Spinosa acabou se afastando da agremição.
Em 1989, a Arquidiocese do Rio entrou com uma ação judicial que impediu a Beija-Flor de exibir uma estátua do Cristo mendigo, no enredo "Ratos e urubus larguem minha fantasia". A escultura saiu envolta em um saco plástico preto.

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