São Paulo, 19 (AE) - Policiais que investigam a máfia dos fiscais nas regionais de São Paulo apreenderam, na tarde de hoje, centenas de documentos e duas máquinas de escrever na Administração Regional da Lapa. Além de duas caminhonetes usadas para transportar pastas e papéis em sacos plásticos e caixas de papelão, o delegado Romeu Tuma Júnior pediu emprestado um caminhão da regional para transportar o material.
Na manhã de hoje, foi preso o ex-chefe de gabinete da Lapa, Gilmar Almeida de Lima, indicado pelo vereador José Izar. A prisão, porém, não está diretamente relacionada à busca feita hoje. Os delegados planejavam apreender documentos desde a semana passada, quando foi encontrada, na casa do fiscal Januário Costa Santos, também detido, um caderno preto com anotações de números de processos da regional, principalmente referentes a 1997 e 1998.
As máquinas de escrever foram levadas para que sejam submetidas a exames da perícia. Policiais acreditam que elas possam ter sido usadas na falsificação de Termos de Permissão de Uso (TPU), uma espécie de licença, com duração de um ano, emitida para camelôs, geralmente idosos e deficientes físicos na gestão da ex-prefeita Luiza Erundina. Embora já não tivessem validade, uma vez que deixaram de ser autorizados em 1993, os termos eram vendidos a ambulantes a partir de R$ 600.
Os delegados investigam denúncias de que os TPUs apreendidos por fiscais também eram comercializados irregularmente. "Vamos analisar todos os documentos que estamos levando e tentar descobrir os autores das falsificações e responsáveis pelas irregularidades", afirmou o promotor Roberto Porto, do Grupo de Apoio Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Ele acompanhou as buscas junto com os delegados Romeu Tuma Júnior e Naief Saad Neto. "A partir do resultado dessas investigações, vamos saber o valor dos pagamentos que eram feitos irregularmente", comentou.
As buscas começaram às 16 horas e até às 17h50, dez minutos antes do horário de saída da maioria dos funcionários, os portões do prédio onde funciona a regional ficaram fechados com cadeado. Ninguém entrava ou saía. As buscas foram feitos em todos os setores onde já haviam sido constatadas irregularidades
entre eles o Departamento de Fiscalização, Arrecadação, Serviços de Uso e Ocupação do Solo e Unidade de Processos e Autos de Infração.
Muitos funcionários ficaram satisfeitos com a visita da polícia. "Esse pode ser o começo da recuperação da nossa cidadania", comemorou uma funcionária que não quis se identificar, enquanto oferecia café e bolo aos policiais e jornalistas. Izar - O camelô Nilson Santos, conhecido pelo apelido "Irmão", também esteve na AR-Lapa durante as buscas. Ele pretendia recuperar seu carrinho de cachorro-quente, apreendido dia 8 de fevereiro. "Fui perseguido porque nunca aceitei pagar propina"
afirmou. Santos, que é diretor do Sindicato da Economia Informal, garante que já foi ameaçado de morte por denunciar o esquema de propinas que, segundo ele, é controlado pelo vereador José Izar (PFL), e diz ter informações que, periodicamente, eram realizadas reuniões entre Izar, fiscais da regional e o ex-administrador, Gilberto Trama, que está preso.
O camelô diz ter presenciado, em uma visita ao gabinete de Izar, a entrega de um envelope que ele suspeita que continha dinheiro proveniente de arrecadações irregulares. O atual administrador regional da Lapa, Edson Pena Batista, ex-supervisor de Uso e Ocupação do Solo, não estava na regional quando os policiais chegaram. Mais tarde, ele disse ter encontrado a AR "completamente desorganizada e desestruturada". Batista afirmou que já colocou 25 funcionários à disposição da prefeitura, e pretende afastar pelo menos outros cem. Quando ele chegou, havia 526 funcionários.

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