Polêmica marca evento contra exploração
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de maio de 2003
Lúcio Flávio Moura<br>Enviado a Foz do Iguaçu 
O governador Roberto Requião (PMDB) criticou ontem o conteúdo do termo de adesão da Campanha de Prevenção e Combate à Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes da Tríplice Fronteira, lançada ontem em solenidade no Hotel Internacional, em Foz do Iguaçu. ''Não entendi o documento'', disse, em tom irônico.
Segundo o governador, o texto é ''uma água-com-açucar'' e ''vai assinado com a decepção do governo do Estado''. Requião disse que irá combater o problema com energia. ''Vamos fazer muito mais do que está no termo'', prometeu. Para ele, ''o problema deve ser encarado com mais dureza, tem que pôr os exploradores na cadeia''.
As declarações causaram mal-estar na solenidade. A coordenadora-geral do Programa de Prevenção e Eliminação da Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes na Tríplice Fronteira, Isa Ferreira, alfinetou o comentário do governador, momentos depois de ele deixar o recinto. ''Não adianta colocarmos bravatas no documento''.
O conteúdo do termo baliza as tarefas da chamada Rede de Prevenção, formada por indivíduos, instituições, empresas e órgãos públicos. Os compromissos são ''de denunciar sempre que constatar casos; envolver-se com ações que protejam os direitos da infância; divulgar e esclarecer sempre que for necessário; e cobrar políticas públicas, sem esquecer que é necessário atuar de forma conjunta''. No total, 120 pessoas receberam um certificado se comprometendo a defender o termo de adesão. ''Se cada setor cumprir o seu papel, não teremos crianças sendo exploradas'', afirmou Isa.
A Tríplice Fronteira é uma das regiões do País onde o nível do problema é mais alarmante. Segundo levantamento da Ciranda (Centro de Notícias dos Direitos da Infância e da Adolescência), feito a pedido da Organização Internacional do Trabalho (OIT), existem 3,5 mil vítimas (70% meninas) de exploração sexual nas três cidades da fronteira (além de Foz, a paraguaia Ciudad del Este e a argentina Puerto Iguazú).
Os números fizeram com que a OIT instalasse um escritório em Foz e começasse a implementar um projeto de US$ 2 milhões (iniciado em dezembro) que envolve três níveis de assistência a vítimas ou possíveis vítimas. O primeiro é a abordagem na rua, o segundo é o atendimento médico-psicológico e o terceiro é a manutenção de um centro de convivência para facilitar a inclusão social dos ex-prostituídos. O projeto já está em andamento. Cerca de 200 adolescentes já foram atendidas no primeiro nível, destes 40 estão frequentando o centro de convivência.
A meta é que, até agosto de 2004, as ações resultem na retirada de pelo menos 300 menores do esquema de exploração, que seria comandado por traficantes, autoridades e empresários, segundo o levantamento descobriu a partir dos depoimentos das próprias crianças. A campanha lançada ontem seria uma forma de fortalecer a rede, um escudo capaz de desbaratar este esquema, que, segundo pesquisadores, movimentaria centenas de milhares de dólares anualmente.


