José Paulo Lacerda/AE
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PolêmicaVítima de estupro, Cíntia Aparecida, com a filha Andréa no colo, participa de sessão da Câmara que discutiu o aborto com representantes de entidades civis A menina A. C., de 11 anos, apresentada como resultado de um estupro, e o menino R.F., de 3 anos, neto de uma mulher vítima de estupro 23 anos atrás, foram levados ontem para a Câmara dos Deputados como símbolo da campanha contra o aborto na Casa. Sorridentes e gordinhos, os dois eram exibidos pelo presidente do Pró-Vida de Anápolis, padre Luiz Carlos Lodi da Cruz, para sensibilizar os deputados a votarem contra o projeto que permite a rede pública realizar abortos em caso de estupro ou de risco de vida para a mãe.
O padre carregou para tribuna do plenário os menores, a avó e a mãe de R.F.. Também o acompanhou, Maria Aparecida Conceição Fonseca, violentada em São Paulo e que manteve a gravidez de Renato - hoje com 22 anos - mesmo surrada pela família, que não acreditou em sua história. Na chegada ao plenário, o padre pôs o grupo de frente para os jornalistas e apontando para a cabeça de cada um identificava: ‘‘filha de estupro’’, ‘‘neto de estupro’’ e ‘‘vítima de estupro’’.
‘‘São gente ou são monstros?’, perguntou Lodi. ‘‘Se vão legalizar o aborto têm de legalizar o homicídio’’, argumentava. Apesar das declarações do padre, A.C. dizia não entender o que significa ser filha do estupro. Só sabe que, ao contrário de suas amigas do colégio, não tinha pai. ‘‘Gostaria de conhecê-lo’’, revelou.
A exibição das crianças indignou as feministas. Elas defenderam punição para o padre, baseada no Estatuto da Criança e do Adolescente. A deputada Rita Camata (PMDB-ES) abordou o padre para conversar sobre o menino R.F., que chegou a ser carregado nas costas de um manifestante pelo plenário. Rita disse ter ficado sem reação quando Lodi lhe respondeu: ‘‘O menino não é filho de estupro e, se fosse, qual seria o problema?’. Segundo o padre, os menores estavam acompanhados pelas avós. A avó de R.F. estava no plenário, mas a de A.C. não foi localizada.
Para o debate na Câmara, da qual participaram quase 40 oradores favoráveis e contrários ao projeto, vieram caravanas de católicos, evangélicos e carismáticos de Goiás e das cidades satélites de Brasília (cerca de 300 pessoas ao todo). Eles tentavam abafar a voz dos convidados que subiam ao plenário para falar a favor do projeto com vaias e até com gritos de ‘‘assassinos’’, no início da sessão. O pequeno grupo de feministas espremido no lado esquerdo do plenário tentava combater as vaias com palmas.
Com um terço na mão, a católica carismática Maria Deuselita Amorim não parou de rezar nas mais de quatro horas da sessão da comissão geral do aborto. ‘‘Rezo para que não seja violado o quinto mandamento da Bíblia: não matarás’’, disse Maria. Os deputados que votassem a favor do aborto em casos de estupro ou de risco de vida da mulher e as pessoas que interrompessem gestação de um ser humano acabarão no ‘‘fogo do inferno’’, praguejou.
‘‘Isso aqui não é comício, não é sessão de exorcismo’’, criticou o deputado Eduardo Jorge (PT-SP), autor do projeto que permite o aborto nos hospitais públicos. A relatora Jandira Feghali (PC do B-RJ) classificou de medieval o debate da Câmara, porque desde 1940 o Código Penal diz que não é crime interromper a gravidez em casos de estupro ou de risco de vida da mulher.
O senador Odacir Soares (PFL-RO), apresentou uma teoria conspiratória. Para ele, a aprovação do projeto interessa aos Estados Unidos porque o Brasil, a longo prazo, terá sua população reduzida.

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