Pobreza mundial estará concentrada nos centros urbanos Da correspondente Monica Yanakiew
Washington, 15 (AE) - Entre o sertão nordestino, onde aprender a ler e sobreviver a uma diarréia ainda são desafios, e São Paulo, com computadores e hospitais comparáveis aos da Europa e Estados Unidos, não havia a menor dúvida. Deixar o campo e partir para a grande cidade, no Brasil e em qualquer outro lugar do mundo, era sinal de progresso. Pelo menos foi assim nos últimos 25 anos deste milênio.
Mas essa realidade mudou. Nos primeiros 25 anos do próximo milênio, a pobreza mundial será concentrada cada vez mais nos grandes centros urbanos. E, ao contrário do que muitos poderiam imaginar, a globalização não vai produzir um planeta governado por estruturas supranacionais e multinacionais. Os municípios terão cada vez mais poder.
"Costumávamos achar que a pobreza era um fenômeno rural e que nos centros urbanos a qualidade de vida era melhor, mas dados recentes pintam uma realidade muito diferente e preocupante", disse Shahid Yusuf, o chefe da equipe do Banco Mundial que montou o relatório de 300 páginas sobre os novos desafios do século XXI. "Em algumas cidades de países em desenvolvimento, as pessoas vivem em condições piores do que no campo."
Em compensação, disse Yusuf, o novo mundo globalizado será "dominado por um conjunto de cidades". Segundo ele, "é nos centros urbanos que toda a ação, no futuro, vai concentrar-se".
Em 1975, menos da metade (38%) da população mundial vivia em centro urbanos. Em 2025, pelas previsões do Banco Mundial, quase dois terços dos habitantes do planeta (59%) estarão morando em cidades - a maior parte deles (90%) em países em desenvolvimento
sem recursos suficientes para montar uma infra-estrutura adequada.
"Para absorver os 2,4 bilhões de novos residentes urbanos, nos próximos 30 anos, as cidades terão que fazer maiores investimentos em moradia, água, saneamento, transporte, energia e telecomunicações", diz o relatório do Bird, divulgado nesta quarta-feira. As cidades que não puderem oferecer serviços adequados aos seus moradores enfrentarão problemas tão sérios quanto os das regiões mais atrasadas de seus países: epidemias, desemprego e violência.
Já em 1994, 220 milhões de pessoas morando em cidades (o equivalente a 13% da população urbana dos países em desenvolvimento) não tinham acesso a água potável. E cerca de 400 milhões nem sequer tinham latrinas. Aliás, metade do lixo sólido das cidades jamais era coletado: era empilhado nas ruas, entupindo os esgotos, contribuindo para inundações e ajudando a espalhar doenças como malária e febre amarela.
Deixar de investir em infra-estrutura, além de reduzir a qualidade de vida dos habitantes das cidades, acaba causando custos adicionais - especialmente para os mais pobres. Na capital da Indonésia, Jacarta, um pobre paga dez vezes mais pelo litro de água limpa do que um cidadão rico. E a economia tailandesa perde entre US$ 272 milhões e US$ 1 bilhão ao ano por causa do engarrafamento na sua capital, Bangcoc.
Apesar de os ricos conseguirem isolar-se cada vez mais dos problemas urbanos (vivendo em condomínios fechados, contratando segurança pessoal, usando computadores para comunicar-se e meios de transporte rápidos e eficientes quando necessários), eles acabam afetados pela crescente pobreza nas cidades. "Por mais que se isolem, os ricos não podem escapar de sequestros e da violência - que são consequências dessa desigualdade social", disse Joseph Stiglitz, economista-chefe do Bird.





