São Paulo, 28 (AE) - Antes de inventar uma fórmula para financiar o fim da pobreza, o governo deveria pensar em um mecanismo para erradicá-la, de preferência com os recursos já existentes, afirmou a economista da Fundação Instituto de Pesquisa Econômica (Fipe), Maria Helena Zockun. De acordo com os cálculos da Fipe, seriam necessários 3,5% do PIB, o que equivale a R$ 34,55 bilhões, anualmente, apenas para acabar com a miséria no Brasil.
As medidas sugeridas pelo senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) prevêem o aumento da carga tributária e ainda criam impostos. O pacote do senador arrecadaria, segundo seus cálculos
entre R$ 6 e R$ 8 milhões por ano até o ano 2010. "Este valor na arrecadação do governo não é nada", afirma Maria Helena. "Os recursos já existem, a questão é como aplicá-los." Segundo a Fipe, pelo menos 1,5% do PIB é gasto pelo governo federal em programas sociais. O problema é que parte desses recursos não chega à população-alvo por causa da quantidade de recursos que a máquina pública absorve para administrar a aplicação desse dinheiro.
"Qualquer proposta que fale em aumento de impostos não deveria nem ser levada a sério", disse Maria Helena. "Com um sistema tributário racional, o País arrecadaria mais, naturalmente", previu. Para ela, a ordem de prioridades está sendo invertida. O senador estaria apontando a origem de recursos já existentes, sem se preocupar com como eles seriam aplicados.
Segundo o mesmo levantamento da Fipe, há no Brasil 20 milhões de trabalhadores com mais de 25 anos que ganham menos de meio salário mínimo, considerados miseráveis. Ainda segundo o estudo, os 30 milhões de brasileiros mais pobres vivem em famílias com renda de US$ 24 per capita ao mês, o que equivale a 1/50 dos 15 milhões de brasileiros mais ricos, que detêm mais da metade da renda nacional. As famílias dos mais ricos possuem renda per capta média de US$ 1,184 mensal.
Para começar a diminuir essa diferença, de acordo com os especialistas da Fipe, o governo federal deveria substituir a multiplicidade de programas sociais burocratizados e mal geridos por outras formas de aplicação dos recursos. Essas alternativas, nos moldes do programa de renda mínima do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), com algumas alterações para evitar a dependência burocrática e a possibilidade de fraude, contribuiriam também para colocar a parcela de miseráveis no mercado consumidor, o que ajudaria a aquecer a economia.
A Fipe propõe programas concebidos para funcionar de forma descentralizada, para beneficiar excluídos de acessos básicos, que destinariam recursos para a velhice, o desemprego, a infância, a saúde e a educação.

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