Pobres terão casas de verdade em Hong Kong
Hong Kong (AE-REUTERS) - A super-capitalista Hong Kong está se mexendo para acabar com as horríveis jaulas de arame onde os mais pobres da cidade têm vivido por décadas.
Em uma cidade onde Rolls-Royces são uma visão comum e os preços das propriedades estão entre os mais altos do mundo, apesar de terem sofrido uma forte pancada no ano passado, a disparidade entre ricos e pobres está em jogo.
Os agentes sociais dizem que milhares de pessoas vivem com todos os seus pertences em jaulas baratas alugadas que são menores do que aquelas em que se esperaria encontrar um animal no zoológico. Os ocupantes podem apenas se sentar ou deitar.
Dúzias destas "jaulas" são montadas em apartamentos sujos e pequenos. A maioria está localizada em distritos velhos e lotados, com locatários masculinos dividindo banheiros e cozinhas. Estas pessoas, conhecidas como "homens das jaulas", foram deixadas para trás quando o território de 6,6 milhões de pessoas prosperava dos anos 70 aos 90.
Mas os homens das jaulas terão algo melhor para esperar se as coisas acontecerem de acordo com os planos do governo. No distrito densamente povoado de Shamshuipo, em Kowloon, um bloco bege modesto de 16 andares está fazendo história. Arejado e iluminado, o Edifício Hei Wah é o primeiro de oito nos quais o governo está recolocando pessoas solteiras, a maioria homens que antes moravam nas gaiolas, muitas das quais estavam localizadas em prédios que não obedeciam às regras de segurança e contra incêndios, criadas em 1994 e implementadas em julho de 1998.
O Hei Wah tem 310 quartos para solteiros mobiliados, banheiros e cozinhas compartilhados, uma sala de estar e uma de atividades. Administrados como flats, os quatros custam de HK$ 900 (US$ 116) a HK$ 1.500 por mês, são limpos e os lençóis trocados toda semana. "Estamos dando a estes homens que de alguma forma foram ultrapassados pelo esquema geral das coisas...uma chance de ter uma acomodação decente e alguma auto-estima. Esta é a idéia por trás de nossos projetos", disse a diretora de assuntos de moradia, Shelley Lau.
Relaxando em seu quarto espartano, mas limpo, Tam Ming- cheong diz que o que ele tem agora é muito diferente da gaiola na qual viveu por mais de um ano. "Nem tente comparar, são mundos a parte", afirmou Tam, que perdeu seu emprego como motorista meio ano atrás. Em sua maioria bancado pelo governo, o Edifício Hei Wah, de HK$ 70 milhões, junto com outros sete projetos agora na fase final, irá prover lar para cerca de 2.000 pessoas até o ano 2005.
Apenas algumas ruas adiante, Wan Wah Cho, de 57 anos, senta em sua cama com todos os seus pertences. Ao lado está o espaço da cama de seu vizinho que ainda não voltou do trabalho. "É claro que eu quero mudar para um local melhor. Aqui é ruim, há insetos e ratos", disse Wan, que vive no mesmo lugar há quatro anos. Para toda direção em que se olha no apartamento sujo e mal iluminado há beliches com duas e até três camas encostadas umas nas outras, arrumadas para acomodar cerca de 36 pessoas. Algumas camas são cercadas por arames, colocados por seus ocupantes para proteger seus pertences, pendurados em sacos plásticos. Do outro lado do apartamento está um banheiro e uma cozinha, compartilhados pelos atuais 27 habitantes, que pagam cada um HK$ 700 por mês de aluguel.
O mundo soube destes lares quando um incêndio consumiu um deles em 1990 e matou sete moradores. O incidente chocou Hong Kong e catapultou os "homens das jaulas" para a atenção mundial quando diretores de filmes capturaram a miséria e o horror de suas condições de vida. Também precipitou uma lei em 1994 que deu ano governo o controle sobre estas hospedagens privadas pela primeira vez. "Não é um meio de excluir da legalidade estes ´apartamentos, e sim assegurar que se estes locais administrados comercialmente têm que existir, eles devem estar de acordo com as regras de segurança e de prevenção de incêndio", disse Lau sobre a legislação. "Isto é, é possível ter uma hospedagem destas, mas se virmos qualquer coisa ilegal que possa comprometer a segurança dos moradores, nós a fecharemos com certeza", ela disse.
Desde setembro de 1998, o governo identificou 92 destas hospedagens. Entre elas, 63 conseguiram licenças para continuar e 29 receberam ordem para fechar. Enquanto o governo diz que há 1.200 homens das jaulas em hospedagens licenciadas, agentes sociais estimam seu número em 10.000. Lau, que descreve o pior destes locais como "a vergonha de Hong Kong", disse que o governo começou a fazer uma pesquisa para encontrar estes "terríveis buracos do inferno".





