Pneumonia cala Bidu Sayão, o rouxinol, aos 96 anos
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quinta-feira, 11 de março de 1999
Por Carlos Haag 
São Paulo, 12 (AE) - O rouxinol (como Mário de Andrade a apelidou) calou-se de vez: a soprano brasileira Bidu Sayão morreu hoje, às 10h40, aos 96 anos, de pneumonia num hopital em Rockwell, Maine (EUA). Dona de uma voz cristalina e delicada como ela mesma, a cantora foi uma das mais respeitadas artistas do Metropolitan Opera de New York (um imenso quadro em sua homenagem, no hall do teatro é prova dessa consideração), admirada pelo maestro Toscanini (que a chamava de la piccola brasiliana), parceira favorita de Villa-Lobos, numa carreira de 38 bem-sucedidos anos.
"Ela ficou hospitalizada por 34 dias, teve alta, voltou para casa, mas há uma semana piorou novamente", disse à Agência Estado Hazel Eaton, empresária e amiga de longa data de Bidu. "Vou cumprir o seu último desejo: ela será cremada e suas cinzas serão espalhadas na baía que fica em frente à sua casa, na Praia de Lincolnville", diz. "Seu sobrinho, Pedro Sayão, já foi informado e aceitou a vontade de Bidu e, assim, não haverá cerimônias, flores ou música", completa. "Pouco antes de morrer, ela me confessou que gostaria de chegar aos 100 anos e celebrar seu centenário visitando o Brasil pela última vez: estava muito emocionada quando me pediu que fosse com ela ao País". Ressentimento - "Ela estava muito feliz com o lançamento de antigas gravações suas pela Sony, dizendo-se aliviada por não ter sido esquecida pelas pessoas após tantos anos, algo que a magoava muito nos últimos anos", revelou a amiga. A cantora, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, em 1995, quando veio ao Rio para ser a homenageada pelo enredo da escola de samba Beija-Flor, evitara falar em ressentimentos pelo descaso oficial com a sua memória, avisando: "Não importa, pois hoje não sou mais a prima-dona da ópera, mas o beija-flor do carnaval".
Antes de ir embora, pediu: "Quero voltar a ver, mais uma vez, antes de morrer, a Baía de Guanabara e suas montanhas tão lindas: será que esse milagre será possível?"
Vida - Nascida em 11 de maio de 1902 no Rio de Janeiro, Balduína de Oliveira, a Bidu, fez seus primeiros estudos musicais no Rio Janeiro e, aos 18 anos, estreou no Teatro Municipal. Aperfeiçoou-se em Bucareste, na Romênia, onde iniciou a sua carreira internacional, e em Paris, com Jean de Reszke, que a introduziu na escola francesa de canto, de técnica perfeita e delicadeza, marcas de Bidu. Em 1926, de volta ao País, fez uma Rosina antológica em "O Barbeiro de Sevilha", de Rossini, passaporte para um contrato no Teatro Constanzi, em Roma. Miúda - Apaixonou-se pela América e, em 1937, estreou no Metropolitan de Nova York. E os americanos corresponderam a seu amor, não a deixando mais partir, com convites para cantar 12 papéis diferentes em 13 temporadas: Violetta, Mimi, Suzanne, Gilda, Zerlina, Melisande, Rosina, etc. Com uma percepção dramática infalível dos seus personagens, Bidu, apesar de miúda e pouco atraente, transformava-se em cena e arrancava suspiros com sua vozinha pequena e delicada, mas com intensidade e beleza.
Foi nomeada "embaixatriz da boa vontade das Américas" pelo governo americano e cantou para o casal Roosevelt na Casa Branca. Em 1954, cansada, fez sua última aparição cênica, como Zerlina, do "Don Giovanni", de Mozart, em Chicago. Continuou, porém, a fazer recitais e em 1958, atendendo ao pedido do amigo Villa-Lobos, fez uma gravação da Floresta Amazônica, com regência do compositor. Foi seu canto de cisne e ela aposentou-se, dedicando-se aos inúmeros gatos que povoavam sua casa. Adorava-os e comparava-se a eles: "Eles são delicados, mas independentes e fortes, como eu que, mesmo velha, sou conservada como um picles, como eles dizem aqui na América", brincava.
Mário de Andrade fez dela um belo retrato: "Ela tem uma voz admirável, de encanto impregnante. Que frágil tenuidade vibra tão frágil e intensa no seu cantar. Prova que uma alma de ave pode escalar na paixão".


