Arquivo FolhaRetração no campoCenso Agropecuário contabilizou redução de 17% no número de estabelecimentos agrícolas nos últimos dez anosA Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 1996, divulgada ontem oficialmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), traz um dado inquietante. O total da população ocupada caiu 2,3% em relação a 1995.E, deste percentual, 8,3% está no campo. Em números absolutos, 1,6 milhão de pessoas deixaram de estar trabalhando no ano passado, sendo 1,5 milhão só em atividades agrícolas. No geral, a taxa de desocupação subiu de 6,1% em 1995 para 6,9% em 1996.
O presidente do IBGE, Simon Schwartzman, disse não ter dados que mostrem se esses novos desocupados foram para as cidades. ‘‘Houve retração da pequena propriedade rural familiar porque boa parte desse contingente é formada por mulheres e crianças’’, afirmou. ‘‘Não sabemos ainda do que vivem essas pessoas, mas, como não houve aumento de emprego nas áreas urbanas, possivelmente vivem mal.’’
Os números consideram não apenas as relações de emprego, mas todas as atividades que têm reflexo sobre a renda familiar. Assim, o estudo envolve desde o trabalhador que perdeu o emprego até as crianças que eventualmente participavam de colheitas como bóias-frias.
Desses 1,5 milhão, cerca de 1,4 milhão são mulheres e crianças entre 10 e 14 anos. Uma pista, em estudos pelo Departamento de População do IBGE, é a de que exista uma migração não para as grandes cidades, mas para médios centros urbanos próximos às áreas rurais.
A taxa de ocupação em atividades agrícolas vinha caindo nesta década numa média de 0,3% ao ano, mas nunca em números tão altos. A PNAD mostrou ainda queda de 6,3% no número de pessoas que trabalham por conta própria no campo - o que englobaria os pequenos estabelecimentos agrícolas. O único dado positivo foi o crescimento do percentual de trabalhadores rurais com carteira assinada, que passou de 24,6% em 1992 para 29,3% em 1996.
‘‘Os avanços tecnológicos na agricultura e pecuária fizeram com que a produtividade aumentasse empregando menos pessoas, embora mais qualificadas, daí o aumento no número de carteiras assinadas’’, avaliou o técnico do IBGE Manoel Antônio Soares da Cunha. Ele lembrou que, no ano passado, aconteceu um índice recorde de inadimplência nos empréstimos agrícolas e, portanto, diminuiu a oferta de empregos. Paradoxalmente, o Censo da Reforma Agrária, divulgado pelo governo federal há dois meses, contabilizou 97.750 famílias assentadas entre 1995 e 1996.
‘‘Eram os sem-terra, mas o problema maior do campo, hoje, está nos com pouca-terra, que não contam com incentivos’’, apontou Cunha. O Censo Agropecuário, que deve ser divulgado parcialmente no dia 20, já contabilizou uma redução de 17% no número de estabelecimentos agrícolas nos últimos dez anos.
A queda de 1,9 milhão em 1995 para 1,5 em 1996 no número de crianças ocupadas no campo poderia ser positiva, não fosse o fato de não haver indicador de aumento de renda significativo nas atividades agrícolas que permitisse o fim do trabalho infantil.
Nas áreas urbanas, o retrato do emprego na era pré-ajuste fiscal é também de retração. O nível de ocupação na indústria de transformação caiu em 1,7% e no comércio, 0,4%. No setor de serviços, o crescimento foi irrisório: 0,3%. A boa notícia da PNAD está no aumento real do rendimento médio mensal do brasileiro: 2,9%.
Mas, enquanto a renda do trabalhador com carteira assinada cresceu 0,6%, a do informal subiu 8,7%. ‘‘Em relação à PNAD 95, que mostrou os benefícios do Plano Real, a de 1996 aponta que os ganhos se mantêm, mas o processo de reestruturação da economia gera efeitos problemáticos’’, admitiu Schwartzman.

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