PMs são suspeitos de matar nigerianos acusados de tráfico
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sábado, 09 de outubro de 1999
Por Renato Lombardi 
São Paulo, 10 (AE) - Sete policiais militares estão sendo investigados pelo Ministério Público como suspeitos da execução de três nigerianos acusados de tráfico de drogas. A investigação apura, ainda, se houve o roubo de US$ 80 mil de uma das vítimas durante a blitz da PM que resultou nas mortes. A execução teria sido planejada pela mulher de um dos mortos e pelo namorado dela, um soldado da PM.
O crime ocorreu na noite de 15 de março do ano passado. O economista Jack Júnior Titus, de 37 anos, e dois primos, o sociólogo Stanley Ufuaro, de 35, e o pedagogo Michael Onyekwe, de 37, nascidos na Nigéria, foram mortos na residência onde moravam, na Rua Hortolândia, em Pirituba, na zona oeste de São Paulo. O tenente Fábio Marcelo Bueno Prado, de 26 anos; os sargentos Marcelo Pedro da Silva, de 29, e Antônio Ladeira Gomez
de 36; o cabo José dos Santos Pereira, de 30; e os soldados Maurício de Paula Pupo, de 29, e Marco Renato Silvino Júnior, de 21, que participaram da operação, disseram ter ido apurar denúncia sobre a ligação deles com o tráfico internacional de drogas.
Alegaram ter sido recebidos a tiros, fato desmentido por uma testemunha. No suposto tiroteio, mataram os três nigerianos. Os PMs disseram ter encontrado na casa 8 quilos de cocaína, dois revólveres (calibre 38 e 32) e uma pistola calibre 380. Onyekwe levou seis tiros. Titus e Ufoaro foram atingidos com uma bala certeira, acima do olho esquerdo. Os peritos do Instituto de Criminalística (IC) acharam marcas de tiros na cozinha, na sala e no banheiro. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) comprova que eles não reagiram, pois foram atingidos "de cima para baixo e de frente para trás", o que pôs em dúvida a versão dos PMs. Cocaína - Titus morava desde 1992 com a carioca Cláudia Maria de Souza Costa, de 31 anos, com quem tinha uma filha de 4 anos. Os PMs investigados disseram que a denúncia sobre a ligação dos nigerianos com o tráfico e o recebimento de uma carga de cocaína fora feita pelo PM Francisco Brasileiro de Oliveira, do batalhão de Pirituba. Cláudia, que está desaparecida, depôs somente na Polícia Militar
poucos dias depois das mortes. Disse que ela e a filha eram maltratadas pelo marido, que usava e vendia drogas, e por isso decidiu denunciá-lo. Omitiu o namoro com o PM Oliveira, a venda de dois carros - um Escort e um guincho -, de propriedade de Titus, e de uma TV, um videocassete e uma máquina fotográfica aos PMs. Execução - Os depoimentos dos PMs e de Cláudia foram desmentidos por uma vizinha, M.M.F., de 38. Ela estava na varanda naquela noite e viu Cláudia e a filha saindo com um policial, num carro da PM. "Pouco tempo depois, ouvi tiros e gritos na casa e estranhei quando disseram que eram traficantes, porque os rapazes eram bons e frequentavam a igreja evangélica do bairro"
disse M. à polícia.
Em seu depoimento, Cláudia dissera ter saído pelos fundos após a chegada da polícia. No dia seguinte, ela fez a mudança. E, com um PM, retirou da oficina o Escort e o guincho. O policial - não-identificado - pagou R$ 200,00 pelo conserto. A suspeita da execução passou a ser investigada pela Polícia Militar depois que a advogada Maria Aparecida Nwbasili, da Comunidade Nigeriana no Brasil, encaminhou petição ao juiz da 5.ª Vara do Júri de Pinheiros, ao Ministério Público e ao Ministério da Justiça.
Ela informou que os mortos não andavam armados e pediu exame residuográfico - não-providenciado pela Polícia Civil -, pois tinha a certeza de que não houvera reação. Os irmãos de Titus, Chidozie Titus, jogador de futebol, e Chukwudazi Ogbu Titus Júnior, denunciaram as mortes e o sumiço dos US$ 80 mil à Vara do Júri de Pinheiros e à Ouvidoria da Polícia. "Meu irmão falou do dinheiro e iria utilizá-lo numa viagem à Espanha", informou Chidozie. Ele não soube dizer se as vítimas tinham ligação com o tráfico. Fez questão de afirmar que eles eram religiosos e jamais andavam armados.
Os mortos não tinham passagens pela polícia e estavam em situação regular no País. O Ministério Público conseguiu a quebra do sigilo do bip usado pelo soldado Oliveira. Nas mensagens, foi descoberta a ligação dele com Cláudia. Antes das mortes, Cláudia pediu que ele ligasse urgente. "Se desistiu, por favor, me avise. Cláudia". Cinco dias após as mortes (20 de março), a mensagem: "Aluguei casa, conta vazia, estou precisando, por favor. Cláudia".No dia 23: "Por que nada na minha conta? Continuo aguardando, tenho urgência, Cláudia." O PM alegou que ela estava cobrando os equipamentos vendidos aos PMs. IPM - O Inquérito Policial Militar (IPM) instaurado pelo 4.º Batalhão para apurar a morte dos nigerianos foi avocado, pela gravidade dos fatos, pelo comando-geral da PM. O relatório final preparado pelo então subcomandante da PM José Carlos Bononi, no fim de 1998, analisa a conduta dos PMs. Bononi citou a compra, por parte dos PMs, dos objetos que pertenciam às vítimas e condenou a preparação do plano de morte dos nigerianos pelo PM Oliveira e por Cláudia, sem que os demais policiais soubessem.
No documento, conclui que houve crime militar dos responsáveis pelas mortes. O IPM está na Auditoria Militar aguardando novas apurações. Tanto no IPM quanto no inquérito policial não há nada que acuse os nigerianos.


