Antônio Scorza/Agência Estado

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‘‘Espancamento moral’’O governador Marcello Alencar afirmou que jornalistas estão sendo irresponsáveis ao noticiar que ele teria recuado da posição de punir PMsApesar de terem sido flagrados por uma câmera espancando moradores na Cidade de Deus, em Jacarepaguá (zona oeste do Rio), os policiais militares envolvidos no caso negaram a autoria das agressões. À exceção do major Álvaro Rodrigues Garcia, que comandava o grupo, os demais policiais nem mesmo se reconhecem nas imagens gravadas por um cinegrafista amador. Em depoimento prestado na madrugada de terça-feira - momentos depois de a agressão ser denunciada ao corregedor da Polícia Militar, coronel Laércio Pacheco - os policiais alegaram que não tinham como se reconhecer no vídeo porque a fita era ‘‘de péssima qualidade’’.
O conteúdo dos depoimentos desmente o governador Marcello Alencar, que no dia seguinte à denúncia informou que os policiais haviam confessado a participação no episódio. O major Garcia, primeiro a ser identificado pelo Comando-Geral da PM e a prestar depoimento, foi o único a reconhecer que aparece nas filmagens, mas negou que tenha praticado qualquer agressão contra os moradores. Ele disse que permaneceu apenas ‘‘de dedo em riste’’ durante a blitz policial, mas alega que não espancou ninguém.
Os demais PMs - o terceiro-sargento João Carlos Barbosa, os cabos Geraldo Antônio Pereira e Sérgio Ricardo Paiva, e os soldados Aldair Ferreira Menezes e Marco Aurélio da Silva - afirmaram, no depoimento, que participaram da operação policial na favela, mas em momento algum se reconheceram na filmagem exibida para eles. No entanto, eles foram idenficados na fita pelo major Álvaro Garcia.
Na Auditoria Militar, há rumores de que a promotora Gizelda Leitão Teixeira poderá formular hoje denúncia contra os seis acusados. Pelo que foi apurado do crime até o momento, a promotoria pode vir a denunciar os policiais por pelo menos seis crimes - lesão corporal, constrangimento ilegal, extorsão, organização de grupo militar para a prática de violência, condescendência criminosa e abuso de autoridade.
Apesar de os policiais não terem confessado o crime e nenhuma testemunha ter sido localizada até o fim da tarde de ontem, a promotoria pode se basear no precedente aberto pelo caso do cabo Flávio Carneiro, que matou um assaltante próximo ao shopping Rio Sul diante das câmeras de TV. A principal peça do processo a que o PM respondeu - ele foi condenado a dez anos de prisão - foi justamente a fita que registrou o crime.
Caso semelhante ocorreu no processo envolvendo dez PMs acusados de espancar moradores na favela de Parada de Lucas. A acusação também se baseou nas imagens feitas por um cinegrafista amador, mas os policiais foram absolvidos em primeira instância. No depoimento prestado ao corregedor da PM, os policiais confirmam a versão do cabo Sérgio Paiva, que disse ter apenas deixado os PMs na favela e regressado ao Destacamento de Policiamento Ostensivo (DPO). No entanto, ele deverá ser denunciado por crime de conexão.
A partir do momento em que receber a denúncia dos promotores, o juiz auditor Marcius Ferreira terá três dias para decidir se a aceita ou não. Normalmente, o juiz costuma tomar a decisão no mesmo dia em que a denúncia é formulada. Ferreira afirmou que a Auditoria Militar leva em média de seis a sete meses para concluir um processo como esse.
RIO - As sessões de tortura sofridas por 11 moradores da Cidade de Deus podem ter sido motivadas por um desentendimento entre policiais do 18º BPM e traficantes locais. Segundo versão contada ontem por duas vítimas da violência, G., de 38 anos, e X., de 22 anos, e confirmada pelo dono de uma birosca, R.A., situada ao lado do paredão onde houve o espancamento, policiais militares vinham exigindo, desde fevereiro, que o chefe do tráfico do bairro, conhecido como Kiko, aumentasse a cota dos PMs de R$ 20 mil para R$ 30 mil por mês. A possibilidade do envolvimento dos policiais com o tráfico de drogas será investigada a partir de hoje pela promotora Gizelda Teixeira.
O governador Marcello Alencar disse ontem que não permitirá o ‘‘espancamento moral’’ da Polícia Militar, mesmo após a denúncia de tortura na Cidade de Deus. Durante uma entrevista coletiva a correspondentes estrangeiros, ele saiu em defesa da instituição e criticou os veículos de comunicação. Alencar afirmou que jornalistas estão sendo irresponsáveis ao noticiar que ele teria recuado da posição de punir sumariamente os PMs envolvidos na blitz na Cidade de Deus. Segundo ele, o sistema democrático exige que até mesmo criminosos tenham direito a defesa.

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