PMs matam menor em favela do Rio; moradores reagem e PM ocupa o local
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quinta-feira, 20 de abril de 2000
Por Luciana Nunes Leal 
Rio, 21 (AE) - A morte de Rômulo Rocha Oliveira, conhecido como He Man, de 16 anos, no Morro do Cantagalo, zona sul, provocou uma reação dos moradores da favela, que impediram a subida dos carros da polícia jogando pedras, tijolos e rolando botijões de gás pela ladeira. Os policiais responderam com tiros
durante cerca de 15 minutos, e ocuparam a área durante todo o dia. A confusão levou apreensão aos moradores da Ladeira Saint Roman, a principal via de acesso ao morro. Ao pé da ladeira, ficam grandes casas de classe média alta, hoje completamente desvalorizadas por causa da violência tão próxima.
Rômulo foi morto às 5h, durante ação de rotina de três policiais do 23º Batalhão, que reforça a Operação Asfixia nas favelas de Copacabana e Ipanema. Há duas versões para a morte. Segundo a polícia, Rômulo era traficante, reagiu à abordagem e levava uma granada, uma pistola e 140 trouxinhas de maconha. Os moradores da favela garantem que o garoto era estudante, voltava de um pagode e foi executado porque não tinha o dinheiro exigido pelos policiais.
"Lamentamos porque a função da Polícia Militar não é matar, é salvar vidas. mas tem que reagir na medida da agressão. Temos que acabar com a hipocrisia de que quando morre bandido a comunidade desce para protestar", disse o comandante do 19º Batalhão da Polícia Militar, coronel Fernando Belo, responsável pelo policiamento nas favelas de Copacabana e Ipanema. "Não queremos polícia arbitrária, mas de forma alguma aceitamos polícia frouxa", afirmou Belo.
Três moradoras, de 13, 17 e 21 anos, foram levadas para a 13ª Delegacia. Só Monique Carmem de Oliveira ficou detida. Segundo o coronel Belo, ela seria uma das auxiliares de Rômulo no tráfico nos morros Cantagalo/Pavão-Pavãozinho.
Os moradores das ruas próximas à favela, em Copacabana, só ficaram sabendo que houve morte no morro quando, às 8h30, começaram a chegar vários carros da PM. Logo ao amanhecer, a situação no morro começou a ficar tensa, com moradores ocupando a ladeira principal. Quando o carro do Instituto Médico Legal desceu levando o corpo de He Man, os vizinhos passaram a jogar pedras e vários tijolos que estavam empilhados na obra de um sobrado. Com a chegada de carros de reforço da PM, obrigados a recuar, os policiais que estavam no meio da ladeira começaram a atirar.
Os tiroteios entre traficantes e de bandidos com policiais neste complexo de cinco mil moradores eram constantes e levaram muitos moradores do Posto 5 e do início de Ipanema a vender casas e apartamentos e mudar de endereço. Em 1992, o ator Older Cazarré foi uma das vítimas desses confrontos: morreu atingido por uma bala perdida, enquanto dormia, em seu apartamento, na Rua Sá Ferreira. Há dois anos, com o policiamento ininterrupto nos morros, os conflitos diminuíram.
O comandante do 19º Batalhão informou que Rômulo era gerente dos pontos de tráfico do Cantagalo, mas agia a mando de traficantes que já não estão mais no morro. "No Cantagalo, não há um líder estabelecido. "As ordens são feitas por telefone de fora. Há investigações para saber de onde vêm", diz o coronel.
A mãe de Rômulo, Adelaine Rocha, negou que o filho fosse traficante.Mostrou uma carteira de estudante deste ano, de uma escola pública de Copacabana, e reclamou da perseguição de policiais ao moradores da favela. Adelaine disse que há um ano perdeu outro filho, de 14 anos, segundo ela também morto pela polícia. O coronel Fernando Belo recusou-se a informar os nomes dos policiais que abordaram Rômulo e disse que, "como de praxe", será aberta uma investigação interna para saber as circunstâncias da morte do garoto.
Oitenta policiais ocuparam o morro hoje, por causa da rebelião dos moradores e, segundo o comandante, ficariam na favela o tempo que fosse necessário. O policiamento de rotina no Cantagalo/Pavão-Pavãozinho será reforçado durante toda a Semana Santa.


