PMs do Amazonas aprendem como abordar homossexuais em curso
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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2000
Por Kátia Brasil, especial para a AE 
Manaus, 15 (AE) - Uma aula polêmica e com perguntas inquietantes marcou a estréia, hoje, do curso "Transformando Corações e Mentes" realizado no Comando Geral da Polícia Militar do Amazonas. Ministrado pelo presidente da Associação Amazonense de Gays, Lésbicas e Travestis (AAGLT), Adamor Guedes, para 70 policiais militares, o curso é inédito na região Norte do País e foi motivado pelo aumento da violência nas abordagens de rua envolvendo PMs e homossexuais.
Segundo a AAGLT, 35% dos registros de espancamentos contra gays e travestis são provocados por policiais. "A discriminação no Amazonas passa pela intolerância no trabalho, atendimento médico, violência policial até o extermínio", disse Guedes. "Meu papel aqui é explicar aos policiais como deve ser a abordagem sem que haja o conflito e a intimidação. É difícil, mas eles já demonstram boa vontade, pois sabem que estamos organizados e prontos para denunciar arbitrariedades". De acordo com o subtenente da PM, Francimar Rodrigues o curso será dado aos 5.912 policiais da tropa no Estado. "Estamos vivendo num mundo em que o homem tem que se adequar a realidade atual e essa adequação se faz pela educação", disse. Palestra - Uma palestra feita pelo advogado militante dos Direitos Humanos, Nestor do Nascimento, abriu o curso. Em seguida, Adamor Guedes entrou na sala falando sobre discriminação, sexualidade, religião e violência nas cidades, chegando a citar o assassinato do adestrador de cães Edson Neris da Silva, morto em São Paulo por um grupo de skinheads.
No ano passado, 11 homossexuais foram assassinados em crimes com requintes de crueldade em Manaus. "A polícia também não demonstra vontade em inevstigar os casos", acusou o presidente da associação. Guedes, um contador que milita há dez anos no movimento gay, relatou no curso como fez sua opção sexual. "Eu já fui noivo, mas quando tive a experiência com homem optei por ser gay", disse. "Eu sou um homem, não tenho nada diferente de vocês".
Os soldados que sentaram na última fila do auditório foram os que mais se surpreenderam e chegaram a fazer chacotas em voz baixa. Mas, na maioria, a turma participou e tentou explicar o que entendia sobre homossexualismo. "Para mim, Deus criou o homem e a mulher, não criou o homossexual", disse um policial. "Não se discute numa sala de aula sobre religião, política e futebol", afirmou o sargento evangélico, Raulino Mendes. "Para mim o homem é livre, não tenho nada contra", disse ele.
Já o soldado do Batalhão de Polícia Especial (BPE), Elúcio Castro, de 28 anos, casado, quis uma resposta científica para opção sexual. "A criança já nasce homossexual? Eu quero saber do ponto de vista biológico", questionou, reconhecendo que a disciplina pode lhe tornar um policial mais ativo com as questões atuais e humanas. "O importante é respeitar o próximo".


