Brasília, 08 (AE) - A direção nacional do PMDB vai produzir na noite de hoje, em Belo Horizonte, o que em linguagem de marketing político deve ser interpretado como "a fotografia" da reunificação do partido. Esse é, de fato, o sentido da presença prevista de uma comissão oficial do partido, liderada por seu presidente, o senador Jader Barbalho (PA), na solenidade de condecoração do ex-presidente da legenda e ex-deputado Paes de Andrade (CE), com o título de cidadão honorário do Estado pela Assembléia Legislativa de Minas Gerais.
Mas a estrela da festa e símbolo do momento inédito de unidade vivido pelo partido será o governador Itamar Franco. Acompanharão Jader, entre outros notáveis, o ex-ministro da Justiça e presidente da Fundação Ulysses Guimarães, senador Renan Calheiros (AL), o líder da bancada na Câmara Federal, deputado Geddel Vieira Lima (BA), e o senador Pedro Simon (RS), pré-candidato à Presidência da República. Com exceção de Simon, os demais membros do comando partidário foram protagonistas da divisão da legenda na convenção que vetou, no ano passado, a candidatura presidencial de Itamar Franco e praticamente removeu Paes de Andrade da direção nacional. A adesão à campanha de reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso deixou sequelas, em ambos os lados, provocadas por ofensas que se derramaram para a esfera pessoal.
A solenidade desta noite pretende mostrar que aquele episódio foi superado e agora faz parte da história.
A festa de hoje do PMDB mineiro, em Belo Horizonte, não se perderá como um movimento solto e isolado no tempo. Na verdade, ela compõe uma estratégia de ação política cujo objetivo final é a conquista da Presidência da República pelo PMDB com candidato próprio. Nesse sentido, a escolha da solenidade de condecoração de Paes para dar partida a esse plano atende a dois pré-requisitos: simboliza, de fato, a reaproximação de alas rivais e chama a atenção da mídia pela importância de Minas Gerais e, sobretudo, porque atribui a Itamar Franco papel decisivo na definição da futura linha política do partido. O inquietante nessa estratégia é o fator de risco que ela representa para o êxito político e administrativo do governo Fernando Henrique. A promoção da unidade política do maior partido do país, e integrante decisivo da coalizão que sustenta Fernando Henrique, está se completando em torno exatamente do ator que de forma mais aguda explicita as divergências do partido em relação à política econômica e o sentimento oposicionista que caracteristicamente sempre compôs o perfil ambíguo do PMDB na política nacional. O governador mineiro, assim como Paes de Andrade, lideram a corrente que defende o rompimento imediato do partido com o governo. Esse grupo supõe que mesmo na hipótese de retomada do crescimento econômico, Fernando Henrique não conseguirá recuperar, na mesma proporção, o prestígio e a popularidade que perdeu na crise cambial de janeiro. O senador Jader Barbalho garante que não trabalha com essa perspectiva. Ele insiste que o PMDB tem consciência da sua responsabilidade como coadjuvante da aliança governista e do seu peso para o equilíbrio das forças que garantem a estabilidade da presidência Fernando Henrique. Em outras palavras, o presidente do PMDB quer dizer que o partido tem noção do impacto político que produzirá na eventualidade de decidir-se por sair do governo. Mas ele alerta que esse apoio tem limites e que o partido não sacrificará a sua identidade em nome da governabilidade.
O ex-ministro da Justiça Renan Calheiros observa que a reorganização em torno do comando nacional do partido tornou-o "mais propositivo" e que, por isso, espera ver levadas em conta suas alternativas de políticas públicas. Renan Calheiros lembra que a posição dos líderes do PMDB, na reunião da aliança governista com Fernando Henrique segunda-feira, foi decisiva para mudar a direção das medidas anunciadas ontem para compensar a perda de arrecadação previdenciária no próximo ano. Pela primeira vez, sublinhou ele, o Palácio do Planalto não adotou "o prato-feito" da equipe econômica e reconhece que foram parcialmente adotadas as sugestões do partido de tributação do mercado financeiro e da remessa de juros para aumentar a arrecadação. "É claro que essas coisas são positivas, mas só isso não basta. Em algum momento, faremos um balanço das nossas relações, e isso poderá levar ou não a uma decisão de rompimento", concluiu Renan Calheiros.

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