Brasília, 15 (AE) - As táticas do PMDB para obstruir investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Judiciário no Senado sobre o envolvimento do senador Luís Estevão (PMDB-DF) no caso do desvio de recursos públicos na construção do Fórum Trabalhista de São Paulo ameaçaram implodir a CPI ontem. Depois de uma tensa reunião fechada de duas horas, o PMDB conseguiu evitar que fosse aprovado um requerimento para que o Banco Central fizesse uma inspeção imediata no Banco OK, de propriedade do senador.
Durante o debate, os senadores Ney Suassuna (PMDB-PB) e Gérson Camata (PMDB-ES) afirmaram abertamente que a investigação sobre Luís Estêvão seria tratada de maneira "partidária" pelo PMDB, segundo afirmaram participantes do encontro, e os senadores José Eduardo Dutra (PT-SE) e Jefferson Peres (PDT-AM) ameaçaram se retirar da Comissão.
"Há limite para o suportar o que provoca nojo e eu não posso continuar trabalhando tendo que tapar o nariz", disse Peres. " O PMDB comportou-se de maneira absolutamente nojenta"
disse Dutra. A vitória do PMDB, contudo, foi apenas parcial: foi aprovado um requerimento dando um prazo de 48 horas para o Banco OK enviar informações sobre as suas operações com a Construtora Ikal, responsável pela construção do Fórum. Caso a CPI considere as informações insatisfatórias, o BC estará automaticamente intimado a realizar uma inspeção no Banco.
Também foi aprovado um requerimento para que a Receita Federal realize uma fiscalização nas empresas do grupo Ikal, em especial em relações às operações de compra e venda de terrenos localizados em São Paulo e Mato Grosso, envolvendo a Ikal e as empresas do grupo OK. A CPI teve informações de que a Receita está realizando uma auditoria na Ikal, tendo constatado que a empresa pagou antecipadamente a fornecedores R$ 20 milhões.
Enquanto os senadores do bloco de oposição viram no fato um indício de lavagem de dinheiro ou sonegação fiscal, Suassuna teria dito que este tipo de operação é corriqueiro no meio empresarial, segundo relato de participantes da reunião.
Uma das operações que chamam a atenção entre o grupo OK e a Ikal é a venda da Fazenda Santa Teresinha. A fazenda foi vendida para o grupo OK em troca da construção de um terminal de cargas que não chegou a ser concretizada. "Quero saber a razão de uma fazenda, que vale cerca US$ 4 milhões, ser negociada por US$ 15 milhões, e a negociação para a construção de um terminal que não existe", justificou Dutra, autor do requerimento.
Durante a discussão dos pedidos, o senador Gérson Camata (PMDB-ES) pediu vistas dos requerimentos, uma figura regimental que não existe em CPIs. Ao ter o pedido rejeitado pelo presidente da CPI, Ramez Tebet (PMDB-MS), Camata ainda tentou recorrer ao plenário para fazer valer o pedido de vistas.
Apenas observando o tiroteio entre os senadores da oposição e pemedebistas, os parlamentares de outros partidos consideraram natural a partidarização da questão. "Em reuniões fechadas, é natural que aflorem sentimentos, inclusive partidários; tudo é válido numa reunião administrativa e não há a obrigação de um senador se portar como um magistrado", disse o senador Geraldo Althoff (PFL-SC).
Para Peres, a postura do PMDB comprometeu a imagem da CPI. "Entendo as dificuldades de investigar-se um colega, mas agir de forma corporativa e partidária neste caso significa retirar toda a força do Senado", Peres. Na noite de hoje, o relator da CPI, Paulo Souto (PFL-BA), mantinha uma reunião a portas fechadas com Estevão.

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