Brasília, 08 (AE) - A postura de independência ostentada pelo PMDB nas suas relações parlamentares com o governo e na propaganda política exibida no horário gratuito obedece a uma estratégia sustentada por pesquisas em que o eleitor cobra do partido oposição ao governo. Segundo pessoas que tiveram acesso à pesquisa, realizada pelo Ibope, os resultados indicam ainda que a legenda é a mais popular entre as que compõem o quadro partidário nacional.
Foram esses resultados, já do conhecimento dos dirigentes do PMDB, que orientaram a cúpula do partido a endurecer com o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. A dose não teria sido tanta, a ponto de gerar uma CPI como a do sistema financeiro, se o PSDB, ignorando as pesquisas, não tivesse provocado ainda mais o PMDB, ao considerá-lo peça descartável em declarações de alguns líderes tucanos. O ministro das Comunicações e articulador político oficial do governo, Pimenta da Veiga, aumentou o conflito ao declarar que os dirigentes do PMDB "foram longe demais" ao criticar a prerrogativa presidencial de nomear o diretor-geral da Polícia Federal desconsiderando a opinião do ministro da Justiça, no caso Renan Calheiros, indicado pelo partido.
As novas peças publicitárias, de 30 segundos cada, estão sendo transmitidas ao longo da programação das emissoras de rádio e TV, parte delas em horário nobre, e reproduzem a linha oposicionista do programa nacional levado ao ar em maio passado. Na ocasião, o programa original foi abrandado por iniciativa do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), para que a intenção de exibir independência não extrapolasse os limites e se tornasse peça de oposição.
O resultado final, que mistura independência com alguma dose de oposição, foi o consenso obtido entre as correntes internas, apesar de o partido ser um dos principais integrantes da aliança que elegeu o presidente Fernando Henrique Cardoso e participar do governo dirigindo os ministérios dos Transportes, da Justiça e a Secretaria de Políticas Regionais.
"Nós somos independentes", sustenta o presidente nacional do PMDB, senador Jader Barbalho (PA). Barbalho acha que o fato de pertencer à base parlamentar do governo no Congresso Nacional "não retira nem diminui a autonomia do partido".
O nome do presidente Fernando Henrique não foi citado uma única vez no material de propaganda do PMDB. Os autores do programa se limitaram a informar que o Jader Barbalho levou a proposta de criação da CPI dos Sistema Financeiro "ao presidente da República", e que este mais uma vez "reafirmou o compromisso com a transparência e a retidão". O programa do PMDB tentou tirar proveito político até mesmo da CPI do Judiciário, criada por iniciativa do senador Antônio Carlos Magalhães (BA), do PFL, insistindo na informação de que a comissão é presidida por um senador do partido.
Edson Barbosa, um dos publicitários da agência Link, da Bahia, escolhida pelo partido para desenvolver o programa, confirma a discussão interna realizada em cima das pesquisas e revela que foi grande o entusiasmo da cúpula com a conclusão de que a legenda é mais popular que a do PT, que vem em segundo lugar. Barbosa explica que a linha que mescla independência e "apoio crítico" conciliou o partido internamente, conseguindo agradar aos seus dirigentes, "do Oiapoque ao Chuí".
Ele conta que tirou maior proveito dos resultados e objetivos da CPI dos Bancos, apresentando o PMDB como o principal autor da investigação. O programa atribui ao Banco Central o papel de vilão no processo de mudança da política cambial em janeiro. Para o PMDB, a diretoria do Banco Central causou um prejuízo "de mais de R$ 1,5 bilhão ao povo brasileiro".
Um locutor, em off, diz que para que "esse tipo de desrespeito" não volte a acontecer, o PMDB irá propor e defender "regras mais firmes e duras". O senador Barbalho aparece, ao final, explicando que a CPI dos Bancos "vai dar mais transparência" ao Banco Central e ao sistema financeiro e que o dinheiro público, ao invés de ser usado para salvar bancos falidos, será destinado principalmente para as áreas de saúde e educação e, para financiar pequenos agricultores e empresários urbanos.
Além de Barbalho, são destacadas na propaganda do PMDB as lideranças dos deputados Michel Temer (SP), presidente da Câmara
Geddel Vieira Lima (BA), líder da bancada na Câmara, e dos ministros Eliseu Padilha, dos Transportes, Renan Calheiros, da Justiça, e Ovídio de Angelis, ministro de Políticas Regionais. A pesquisa do Ibope, cujos números finais ainda estão sendo tabulados, registra o crescimento nacional sobretudo das figuras de Jader, Temer e Geddel e assinalam a popularidade de Itamar Franco, eleito pelo PMDB para o governo de Minas Gerais.
Com a linha de independência política em relação ao governo do qual participa, os atuais dirigentes do PMDB estão repetindo uma estratégia que marca a trajetória do partido desde a redemocratização do país, em 1985, e a frustrada posse de Tancredo Neves na Presidência da República, cuja morte abriu o caminho para o período José Sarney. Liderado pelo falecido deputado Ulysses Guimarães, que nesta pesquisa do Ibope aparece como a mais forte referência histórica da legenda, o PMDB jamais assumiu de fato o papel que a sua participação no ministério exigia, negociando caso a caso a votação de matérias de interesse do governo no Congresso. Ulysses teve até mesmo poder de nomear ministros e também de veto sobre decisões do presidente, como foi o caso da escolha de Tasso Jereissati para o Ministério da Fazenda, que Sarney não pôde realizar porque ele se opôs à indicação.

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