São Paulo, 01 (AE) - Cerca de 120 policiais militares retiraram hoje 267 famílias do Conjunto Brasilândia da Companhia Habitacional de Desenvolvimento Urbano (CDHU), no Jardim Brasília, zona oeste. Elas haviam invadido os apartamentos do Yadoia, como os prédios são conhecidos, em setembro do ano passado. A reintegração de posse foi determinada pelas 1ª, 2ª e 3ª Varas do Fórum da Lapa.
Os invasores foram para a casa de parentes e para abrigos. Os móveis de quem não pôde levar toda a mudança foram transferidos em 60 caminhões para depósitos da CDHU.
Treze famílias permaneceram nos prédios. Elas dizem ter sido vítimas de golpe de uma associação de mutirões - a Branca Flor, já extinta -, com conhecimento da CDHU. Os pertences do grupo chegaram a ser postos nos caminhões, mas foram recolocados nos apartamentos porque a advogada das famílias, Ana Lúcia Pacheco Augusto, conseguiu, à última hora, liminar para que elas permanecessem no conjunto. A decisão foi motivo de comemoração no fim da tarde.
Candidato - Segundo as famílias beneficiadas pela liminar, o golpe foi aplicado pela presidente da Branca Flor, Maria de Lourdes de Oliveira Leal, que desapareceu. A dona de casa Cláudia Pereira entrou para a associação em 1997. "Não desconfiava de nada; Édson Marques participou de uma das nossas seis reuniões", garantiu. Marques, que na época já trabalhava na CDHU, é diretor de Mutirões da companhia. Os ocupantes disseram ainda que ajudaram Marques na sua campanha a deputado estadual.
Depois de algum tempo, conforme o relato de Cláudia, a presidente da associação chamou o grupo, anunciou que teria vagas para o Yadoia e cobrou taxa de R$ 40,00 para a liberação das chaves. De alguns, cobrou até R$ 5 mil e entregou um contrato provisório. Tranquilos, todos mudaram-se à espera da documentação definitiva.
Não demorou muito para Maria de Lourdes pedir de volta o contrato, alegando precisar dele para entregar o definitivo. Precavida, a auxiliar de serviços gerais Maria Helena da Silva Alves foi uma das poucas a tirar cópias do documento, assinado por Arnaldo Negri, gerente de Controle de Processamento da CDHU.
Passados alguns meses, Maria de Lourdes admitiu a alguns moradores que o contrato era falso - falso, em termos, já que a papelada havia sido subtraída da CDHU por um funcionário. "Ela disse que nossos nomes não estavam nos computadores da companhia e era para guardar sigilo", contou Maria Helena. "Se eu abrisse a boca para alguma autoridade, não ficaria no apartamento."
Nesse meio tempo, o grupo teria sido procurado por Negri
pelo assessor da presidência da CDHU Sanenari Oshiro e por Josias Alves Morato (dono de uma imobiliária em Parada de Taipas
ele identificava-se como assessor do secretário da Casa Civil Celino Cardoso). Negri teria dito ser o principal interessado em resolver a situação e garantiu que o grupo poderia permanecer no conjunto. O advogado da CDHU Vítor Tavares Gomes esteve ontem no local e, analisando os papéis, concluiu tratar-se de "montagem".
Nota - Em nota à imprensa, a CDHU informou que tomou conhecimento da venda irregular de apartamentos pela Associação Branca Flor em janeiro e enviou o caso à Corregedoria- Geral do Estado, que por sua vez as encaminhou ao Departamento Estadual da Polícia do Consumidor (Decon). Em 23 de março, a entidade foi desligada do quadro de cadastrados para o programa de mutirão. A CDHU informou ainda que o nome das pessoas que se dizem logradas nunca constou da sua relação de mutuários.

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