O governo de Mato Grosso do Sul prepara uma operação ilegal para dar cumprimento a uma ordem judicial de desocupação da Fazenda Santo Antônio, do Grupo Bertin, em Itaquiraí, extremo sul de Mato Grosso do Sul. Sem recursos para executar o despejo, o comando da PM em Naviraí, responsável pelo policiamento na região, já acertou com representantes do fazendeiro João Bertin detalhes da ação como fornecimento de máquinas da fazenda, além do abastecimento de comida e água para a tropa.
‘‘Já conversei com o pessoal da fazenda e está tudo acertado’’, afirmou ontem o major PM Jaime Lopes Flores, chefe da 8ª Companhia, em Naviraí. Ele disse que o fazendeiro vai fornecer tratores e abastecer a tropa para que ‘‘não haja perda de tempo no dia do despejo’’. ‘‘Se tiver troncos na estrada vamos ter de usar máquinas para abrir desvios’’, explicou, detalhando os planos da PM para desalojar cerca de 2.300 famílias que invadiram a Santo Antônio dia 8.
‘‘Esse tipo de ação é ilegal’’, reagiu ontem, em Brasília, o deputado Hélio Bicudo (PT-SP). O parlamentar, que é jurista, explicou que o Estado não pode usar recursos da iniciativa privada para executar funções de administração pública. ‘‘Isso é crime de responsabilidade’’, disse Bicudo. ‘‘Um ato desses é contra a moralidade da administração pública’’, afirmou. Bicudo considerou ainda mais grave o que ocorre em Mato Grosso do Sul por se tratar de auxílio material de uma das partes interessadas no processo. ‘‘É claro que o fazendeiro oferece recursos de graça’’, disse. ‘‘Ele é o principal interessado’’, afirmou.
Em pelo menos duas outras ações trágicas da polícia nos Estados de Rondônia, em Corumbiara (12 mortos), e em Eldorado de Carajás (19 mortos) houve denúncias de colaboração de fazendeiros com apoio logístico à operação de reintegração de posse. Em Corumbiara, o próprio Inquérito Policial Militar (IPM) que apurou a morte de dez sem-terra e dois Pms dia 9 de agosto de 1995 concluiu que houve uso de recursos da iniciativa privada. Os sem-terra denunciaram a mesma ligação no massacre de Eldorado de Carajás, que completa um ano dia 17.
Mas o major argumenta que sem auxílio a reintegração não poderá ser feita. ‘‘É uma operação cara que envolve gente de todo o Estado’’, argumentou. Ele disse que o governo aguarda o resultado de uma reunião marcada para hoje, em Campo Grande, no fórum estadual com representantes dos sem-terra. ‘‘Só depois é que vamos mobilizar a tropa de Corumbá, Dourados e Três Lagoas’’, afirmou. O comando do despejo, entretanto, deve ser executado por um oficial mais graduado. ‘‘Talvez venha um coronel’’, contou Flores.

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