Rio, 29 (AE) - Quatro supostos traficantes morreram, ontem (28) à noite, em um tiroteio no Morro do Estado, em Niterói. Segundo informações da polícia, a troca de tiros começou por volta de 19h30 quando traficantes do Morro do Adeus, na zona norte do Rio, ocuparam o do Estado. Os acessos ao morro foram fechados pela polícia, impedindo que cerca de 400 pessoas voltassem para suas casas; muitas foram obrigadas a dormir em praças. Lojas comerciais, escolas e o posto de saúde ficaram fechados hoje. Os mortos não foram identificados.
Pelo menos 20 homens participaram do ataque ao Morro do Estado. Segundo testemunhas, eles teriam chegado em um caminhão baú. Armados de fuzis e pistolas, ocuparam a associação de moradores, que fica em frente a um campo de futebol, no alto do morro. A posição privilegiada permitiu que os traficantes retardassem a entrada da polícia na favela. Pelo menos uma granada foi detonada durante o confronto. O comandante do 12.º Batalhão da Polícia Militar (Niterói), tenente-coronel Renato Hotzz, tem duas versões para a invasão. Hipóteses - Na primeira, os traficantes do Morro do Adeus, controlado pela facção criminosa Amigo dos Amigos (ADA) teriam ido ao Morro do Estado (Terceiro Comando) cobrar uma dívida por um carregamento de drogas não pago. A outra hipótese: o traficante Vanderlei - cunhado de Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê - teria feito acordo com a quadrilha de Valter Gomes de Carvalho, o Valtinho da Boa Vista, para tomar o controle do comércio de drogas no Morro do Estado.
Valtinho é o traficante que aparece em uma fita de vídeo ao lado do deputado federal Wanderley Martins (PDT-RJ), exibida na CPI do Narcotráfico. "A segunda versão é a mais provável", afirmou o comandante Hotzz.
Pânico - Durante o tiroteio, que continuou intenso até 1h30 mas só acabou na manhã de hoje -, a polícia interditou o tráfego na Rua Fagundes Varella, rua de classe média que dá acesso ao morro. Em pânico, motoristas davam ré em carros e ônibus, enquanto moradores dos edifícios em frente ao Morro do Estado deixavam seus apartamentos.
Por volta das 21 horas, um carro da Polícia Militar fazia sinais para as pessoas se afastassem da cabine da PM, na Praia das Flechas, a 500 metros de uma das entradas do morro. Na cabine, um soldado estava sozinho, com a pistola sobre a mesa. "Eles já atiraram contra a cabine que fica em frente ao Plaza Shopping", explicou o policial. A informação não foi confirmada pelo comando.
Hoje, muitos moradores do Morro do Estado deixaram de ir trabalhar. "Não dá para sair sem saber se vamos poder voltar", disse uma doméstica, de 49 anos, desde os dez na favela. "Minha irmã foi na aula à noite e teve de dormir na Praça do Rink; não tivemos notícia dela". Com uma ferida na perna, a doméstica não pôde ser atendida no posto de saúde, nem seus filhos foram à escola. "Professor e médico não querem colocar a cara na reta"
disse.
Ocupação - O secretário de Segurança Pública, Josias Quintal, que mora próximo ao local do conflito, disse que cerca de 100 policiais militares continuarão ocupando a favela. "Isso certamente é resultado da pressão que faz a polícia, que aperta uma favela e os traficantes fogem para outra comunidade.
No fim do tiroteio, a polícia encontrou numa caixa dágua quebrada os supostos traficantes Marcos Leandro Carneiro, de 24 anos, Leandro Martins, de 18, ferido na perna esquerda, e Claudio Roberto Santos Salles, de 24, baleado no tórax. Eles contaram apenas que estavam "a serviço do Morro do Adeus". Foram apreendidos um fuzil AR-15, duas pistolas, maconha e cocaína. A droga não foi pesada.