PM nega ter disparado contra sem-terra
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terça-feira, 13 de junho de 2000
Luciana Pombo De Curitiba 
O policial militar acusado de ter atirado e matado o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de Candói, Antonio Tavares Pereira, de 38 anos, nega a autoria do disparo. Há 18 anos trabalhando como soldado na corporação, Joel de Lima Santa Ana, de 38 anos, disse que está sendo vítima de uma armação. No entanto, ele não cita nomes nem acusa quem seria o autor da suposta armação para incriminá-lo.
Em entrevista exclusiva à Folha, depois de mais de um mês de silêncio, o soldado disse que se sente prejudicado emocionalmente. Santa Ana foi afastado do trabalho externo da Polícia Militar e diz ter vivido momentos difíceis ao lado da mulher e dos três filhos. Agora, evita entrevistas e pede para não ser filmado ou fotografado.
O policial acredita que esta seja uma forma de preservar sua identidade e evitar que sua imagem seja explorada. Abaixo trechos da entrevista feita ontem, no 12º Batalhão da Polícia Militar, em Curitiba:
Folha Este foi o primeiro ato envolvendo o movimento sem-terra que o senhor participou?
Joel de Lima Santa Ana Sim, foi o primeiro.
Folha O que aconteceu exatamente no dia 2 de maio, na BR-277?
Santa Ana Nós fomos fazer o acompanhamento como batedor de cinco ônibus dos sem-terra.
Folha Eles estavam vindo para Curitiba?
Santa Ana Nós tínhamos saído do Posto Rodoviário do Contorno Sul, onde todos foram revistados e estávamos encaminhando todos eles de volta, no sentido de Ponta Grossa, para fazer o retorno.
Folha E aí o que aconteceu?
Santa Ana Em torno do quilômetro 15, fomos abordados por 15 ônibus que estavam vindo. E este pessoal já estava bloqueando as pistas. Nós estávamos com três viaturas, uma na frente e outras duas acompanhando a lateral e a traseira do comboio. A primeira conseguiu escapar e as outras duas, eles bloquearam e fecharam. Tivemos que descer das viaturas. Não teve como passar.
Folha Vocês tiveram que descer das viaturas?
Santa Ana Descemos das viaturas, fomos conversar com eles amigavelmente, mas não teve jeito. A palavra de ordem deles era matar, vamos matar esses policiais, esses assassinos. Tentamos conversar com eles, mas não teve diálogo. Foi onde começamos recuar na frente das viaturas. Eles abordaram o cabo Galvão e oito pessoas seguraram uma escopeta que ele estava na mão e levaram ele para o meio. Foi quando começamos a disparar as armas.
Folha Mas eles chegaram a pegar a arma?
Santa Ana Arrebataram o revólver dele, levaram o revólver dele. Somente com os disparos é que largaram o cabo Galvão. Eu efetuei dois disparos. Eu estava na posição Sul. Dei o primeiro disparo, eles continuaram vindo para cima. Dei o segundo e eles então dispersaram.
Folha Para onde foram os disparos? Qual a direção?
Santa Ana Posição Sul é para o chão. Eu efetuei dois disparos para o chão. Não pegou ninguém. Tenho certeza absoluta disto.
Folha Como é que você pode ter certeza disto?
Santa Ana Porque não caiu ninguém na hora. Naquele momento e o jeito que eles estavam armados com foices e facões se alguém tivesse ficado ferido, eles partiriam para cima da gente, nós morreríamos.
Folha E por que não tiro para o alto?
Santa Ana Foi a posição que eu aprendi. A arma que eu estava usando era uma repetidora. Então se usa esta posição, apontada para o solo.
Folha Neste momento em quantos vocês estavam?
Santa Ana Nós estávamos em seis policiais ali.
Folha E eram quantos sem-terra?
Santa Ana Quase 800 sem-terra. Eram 15 ônibus e todos desceram armados com foices e facões.
Folha Mas eles chegaram a partir para cima das viaturas?
Santa Ana Partiram. Por isto as viaturas estão todas marcadas com pancadas de foice que deram.
Folha Existe a possibilidade de um outro militar ter atirado durante este conflito e atingido o sem-terra?
Santa Ana Por que acharam que fui eu que atirei? Eu disparei para o chão, ela (a bala) pegou e subiu. Não tinha ninguém do meu lado. Outra coisa, o horário não bate. Foi em torno de 9 horas. Ele entrou no hospital 9h09. Por onde ele foi? Por onde ele saiu? Por que ninguém apresentou o ferido na hora? Por que não comentaram com a imprensa que um ferido tinha sido levado para o hospital? Por onde saiu o carro que o levou para o hospital se as duas pistas estavam bloqueadas? Eu saí do quartel às 7h55. Eles foram todos revistados no Posto para depois retornarmos. Ficamos quase uma hora no posto.
Folha Mas o primeiro incidente ocorreu por volta das 8h30.
Santa Ana O primeiro foi em São Luis do Purunã, com a Polícia Rodoviária. Depois teve outro, com o pessoal do 13º, quando três pessoas foram levadas para o Hospital de Campo Largo. O nosso foi o terceiro confronto. E teve mais um, que foi o maior de todos e que a reportagem cobriu.
Folha Mas houve uma perícia que comprovou que a arma era a sua.
Santa Ana Foi feita a perícia da minha arma numa jaqueta. A jaqueta que foi achada posteriormente. Como podem dizer que a jaqueta era mesmo do rapaz que foi baleado?
Folha O senhor acha que isto tudo foi montado?
Santa Ana Eu acho. Eu acho que foi montado.
Folha Pelos próprios sem-terra?
Santa Ana Não sei. Isto tem que ser investigado.


