PM mata garoto e moradores protestam
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sexta-feira, 14 de maio de 1999
Agência Estado 
Moradores do Morro da Mangueira, na zona norte do Rio, fecharam ontem a Rua Visconde Niterói, a principal via de acesso à favela, e entraram em confronto com policiais do 4º Batalhão da Polícia Militar que tentavam liberar a rua, dando tiros para o alto e soltando bombas de efeito moral. O tumulto se prolongou por toda a manhã. Os moradores atearam fogo em pneus, apedrejaram ônibus, carros particulares e até uma viatura da polícia. A situação só se acalmou com a chegada do subsecretário de Segurança Pública, Luís Eduardo Soares.
A confusão aconteceu, segundo os manifestantes, porque pela manhã policiais civis invadiram o morro atirando e mataram, com vários tiros, o estudante Alex Sandro dos Santos, de 14 anos. Houve gritos, correria, pânico e revolta. De acordo com os moradores, o garoto havia saído de casa para comprar pão, quando sete policiais civis, chefiados por Horácio Reis Dias, conhecido como Rambo, chegaram atirando. O menino correu para se esconder em uma casa próxima à padaria, mas foi atingido por três tiros. Os moradores contaram ainda que os policiais jogaram o corpo do garoto na lixeira. Por volta das 10 horas recolheram o corpo e o levaram para o Hospital Souza Aguiar.
Inocente Santos era atleta da Vila Olímpica da Mangueira e segundo filho de Solange dos Santos, que mora na localidade de Olaria, no alto da Mangueira. Como ele não tinha qualquer ligação com o tráfico, os moradores, revoltados, desceram até a Visconde de Niterói e puseram fogo em dois carros velhos, deixados debaixo do viaduto da Mangueira.
A PM foi chamada para liberar a rua e, segundo os moradores, chegou atirando para o alto e trazendo também um helicóptero, onde dois homens apontavam metralhadoras para os manifestantes.
Apesar da presença da polícia, os moradores não se intimidaram e a situação se tornou tensa. O comandante geral da PM, coronel Sérgio da Cruz, esteve no local, mas não conseguiu conter os militares que ficaram irritados com a ação dos moradores.
O subsecretário de Segurança foi chamado às pressas, junto com o subsecretário de Direitos Humanos, Ivanir dos Santos que mora em Mangueira. Soares conseguiu conter os moradores com a promessa de que a PM sairia desde que eles liberassem a rua.
Testemunhas Ele propôs também que as testemunhas do episódio fossem depor na 5ª Delegacia Policial com garantias de segurança. As testemunhas preferiram não descer até o Centro e apenas os quatro presidentes das associações de moradores da Mangueira foram à delegacia. Entretanto, nenhum deles assitiu à cena. Diante do temor dos moradores, chegou-se a um consenso de que os depoimentos seriam tomados na Vila Olímpica da Mangueira, para onde foram os dois subsecretários de Estado, o chefe da Polícia Civil, Carlos Oliveira D Olveira, e a subchefe, delegada Martha Rocha.
Ao chegar, DOliveira disse que os policiais já tinham sido identificados. Eram sete e estão lotados na Metropol I. A operação no Morro da Mangueira era legal e do conhecimento do titular da delegacia, Alberto Chagas. No entanto, o chefe da Polícia Civil não soube dizer se o policial conhecido como Rambo estava entre eles. Eu só dei a ordem para que eles se apresentassem e vim correndo para cá ouvir os depoimentos, justificou.
O presidente da Associação dos Moradores da Candelária, Celso Perez, disse que as incursões da Polícia Civil no morro são frequentes e que eles já chegam atirando. Queríamos pedir ao governo que a polícia só subisse o morro para cumprir a lei e não descumpri-la, afirmou. À tarde, a mãe do garoto morto, Solange dos Santos, chegou à Vila Olímpica, para depor, acompanhada de três testemunhas do crime. Elas estava inconformada.
Uma das testemunhas, D.V., de 20 anos, contou que estava com o garoto quando os policiais chegaram atirando. Ele ficou assustado e correu para dentro de uma casa, lembrou. Segundo ele, ao verem o jovem correndo os policiais o perseguiram. Ele saiu da casa e acabou sendo encurralado em um beco onde foi fuzilado. Foi uma covardia, disse. O menino cursava a 4ª série no Colégio Mestre Valdomiro. Ele será sepultado hoje.


