Eunápolis, BA, 22 (AE) - Militantes do Movimento dos Sem-Terra, de partidos políticos, de centrais sindicais e até turistas e viajantes foram proibidos de entrar hoje em Porto Seguro (BA), onde o presidente Fernando Henrique Cardoso era esperado para as comemorações oficiais dos 500 anos do Descobrimento. Cerca de 200 homens da Polícia Militar fizeram uma barreira na BR-367, principal acesso à cidade, na altura da cidade de Eunápolis, a 50 quilômetros de Porto Seguro, desde a noite de sexta-feira, bloqueando completamente a passagem. A cidade ficou virtualmente isolada.
"As barreiras foram solicitadas pela segurança da Presidência da República", informou o secretário de Comunicação do governo da Bahia, Fernando Vita. "Todo o esquema de segurança foi coordenado pelo Ministério da Defesa." O porta-voz do Comando-Geral da Polícia Militar da Bahia, coronel Cristóvam Pinheiro, afirmou que não havia previsão para a liberação da estrada. "A barreira foi necessária diante das declarações dos líderes do MST de que entrariam na cidade de qualquer jeito", justificou. Cerca de 2 mil sem-terra estão acampados em Eunápolis desde o dia 15.
Seu objetivo, bem como dos integrantes de partidos políticos, movimentos sociais e sindicatos, era entrar na cidade para, juntamente com índios, participar do ato "Outros 500" -um protesto contra as comemorações oficiais do descobrimento. Pelo menos 400 integrantes do MST conseguiram chegar a Porto Seguro durante o dia de ontem, em carros de passeio.
As pessoas retidas na estrada improvisaram uma manifestação em frente à barreira, cantando o Hino Nacional e gritando palavras de ordem. Eles estudavam a possibilidade de à tarde fazer uma passeata em Eunápolis ou bloquear a BR-101 (Rio-Bahia). "A partir do momento em que mandou fechar a cidade
o presidente não tem mais moral para dizer que nossas ocupações são ilegais", afirmou Valmir Assunção, da coordenação nacional do MST. "A cidade está isolada para que ele e os bobos da corte comemorem sozinhos os 500 anos." Assunção afirmou que o bloqueio é inconstitucional.
"Temos o direito de ir e vir", disse ele. "Sabíamos que teríamos algumas complicações, mas nunca imaginamos que seríamos impedidos de passar", afirmou o diretor de Grêmios da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), Romeu Morganti, de 21 anos, que chegou em uma caravana de 30 ônibus. Durante a madrugada, a senadora Marina Silva (PT-AC) e outras lideranças petistas estiveram no bloqueio e afirmaram que tentariam negociar com as autoridades a liberação das pessoas.
Além dos manifestantes, muitos turistas retidos em Eunápolis protestaram. "Isto é um absurdo", afirmou a professora Amália Fernandes, de 40 anos, que saiu de São Paulo na noite de quinta-feira para assistir às comemorações dos 500 anos. "Fizeram uma festa para a elite e estão impedindo a população de participar", acrescentou o professor Omar Tostes, de 57 anos, que acompanhava a colega. O contabilista Lucival Bonfim, de 35 anos, vinha de Ilhéus para passar o fim-de-semana em Porto Seguro. "Só vim porque a prefeitura garantiu que todo mundo poderia entrar na cidade." Um radialista de Parintins (AM), que ia transmitir a festa, também ficou retido. "A população de Parintins é que está pagando o pato", reclamou.
Até a escrivã de Polícia Tânia Miranda, de 42 anos, foi impedida de passar. "Estou de férias e ia passear em Porto Seguro." A fila de veículos retidos na barreira chegou a 2 quilômetros. Desde o meio da madrugada, no entanto, muitos começaram a retornar a seus locais de origem. Até meio-dia, não tinham sido registrados incidentes.

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