PM fuzila família na zona norte do Rio
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sexta-feira, 16 de outubro de 1998
Sergio Torres Agência Folha 
Uma grávida em trabalho de parto morreu, assim como o bebê em sua barriga. O filho caçula dela, de quatro anos, também morreu. O marido, baleado três vezes, está hospitalizado em estado grave. Esse foi o resultado, segundo testemunhas, de uma desastrada ação da Polícia Militar em Fazenda Botafogo (zona norte do Rio), anteontem, pouco antes da meia-noite.
Um sargento abriu fogo contra o Passat em que a família seguia para a maternidade Carmela Dutra, onde Maria Cristina Gomes, 40 anos, daria à luz. Na 40ª Delegacia de Polícia, o sargento Joel Evaristo da Silva disse que atirou contra um táxi Del Rey cujos ocupantes teriam disparado contra a patrulha. O Passat vinha na frente do Del Rey, disse o PM. Ele afirmou que não sabe se seus tiros atingiram o Passat. Ouvidos ontem pela reportagem, 30 moradores da favela Nova Fazenda Botafogo (onde a família morava), testemunhas do episódio, contestaram a versão da PM.
Segundo os moradores, que, por medo da polícia, evitaram se identificar, não havia Del Rey. A patrulha teria atirado porque o Passat, de placas amarelas desatualizadas, estaria em alta velocidade. Um comerciário que conversava em um bar na saída da favela contou que o Passat, ao entrar no asfalto cantando pneus, passou a ser perseguido pelo carro da PM. Os policiais, disse o rapaz, atiravam contra o Passat. A 30 metros do acesso à favela, estava uma operária de 25 anos. Ela disse que ouviu o barulho do Passat arrancando e logo depois uma série de disparos que partiram do Voyage da PM. Um gari também afirmou ter presenciado a perseguição. Segundo ele, depois que o Passat bateu no poste, os policiais se aproximaram devagar, com armas na mão. A testemunha disse que o sargento chorou ao ver o menino morto no banco de trás. As três testemunhas negaram a existência de um terceiro veículo.
Pouco depois das 23 horas, a dona de casa Maria Cristina, grávida de nove meses, começou a sentir as dores do parto. Apressado, o marido, Sidney Vieira Lima, 37, acordou os filhos - Érica, 6 anos, e Felipe, 4 - para acompanhar o casal à maternidade, pois não tinham com quem deixá-los. Fora da favela, um Voyage do 9º Batalhão da PM patrulhava a área. Nele, estavam o sargento Silva e o cabo Edilson Pires de Vasconcelos, 34 anos. Os policiais apresentam a mesma versão: na rua Sargento Sílvio Hollenback, eles teriam visto o Passat, seguido do Del Rey, cujos ocupantes teriam atirado contra eles. O cabo teria manobrado o Voyage, enquanto o sargento atirava com uma carabina. O Passat parou em seguida, espatifado contra um poste.
No carro destruído, estavam Lima, com tiros no pescoço, ombro esquerdo e nádegas, a mulher grávida, com a bacia esmagada, o menino Felipe, morto com um tiro na cabeça, e Érica, em estado de choque. Maria Cristina morreu às 3h30 no hospital de Bonsucesso, durante cirurgia para a remoção do bebê, àquela altura morto. Era uma menina. O corpo de Felipe ficou no local, de onde foi removido para o Instituto Médico-Legal. O pai e a irmã foram para o hospital Getúlio Vargas.
Os PMs, após os depoimentos, foram levados para o 9º BPM. A carabina do sargento foi apreendida. A arma passará por perícia e comparada com as balas disparadas contra o Passat. O resultado de balística poderá mostrar se os tiros saíram da carabina.
A VERSÃO DE MORADORES


