Marcos Zanatta
De Maringá
A Secretaria de Segurança Pública efetuou ontem a reintegração de posse de três propriedades no Noroeste do Estado: as fazendas Figueira, em Guairaçá (26 km a noroeste de Paranavaí); Santa Filomena, em Santa Cruz de Monte Castelo (103 km a oeste de Paranavaí); e Eloá, em Terra Rica (57 km a noroeste de Paranavaí).
A maior resistência foi registrada na Fazenda Figueira, de 3.358 hectares, onde quatro crianças e seis adultos sem-terra e três policiais militares ficaram feridos. Outros 31 sem-terra, que estavam acampados na propriedade e na Fazenda Santa Filomena – alguns feridos por balas de borracha –, foram presos, acusados de porte ilegal de arma, formação de quadrilha e desacato.
Os comandantes da operação não permitiram o acesso da imprensa. Moradores próximos e os sem-terra desalojados da Figueira disseram que a PM usou bala de borracha e bomba na operação.
Segundo boletim da Santa Casa de Paranavaí, onde os feridos foram atendidos, Adriano de Conto, 4 anos, teve a mão ferida possivelmente por bala. A irmã dele, Claudimara de Conto, 7, levou um tiro de bala de borracha na barriga; Júnior Correia, 2, feriu os olhos com estilhaços; e Eli Guedes, 5, cortou o pé. A mãe de Eli, Maria Ivete Geni, 35 anos, levou um tiro com bala de borracha no rosto. Os outros atendidos na Santa Casa, inclusive os dois PMs, tiveram ferimentos leves.
A sem-terra Salete Pelissari, 31 anos, mãe de uma das crianças feridas, disse à Folha que o acampamento foi cercado pelos PMs por volta das 9h30. ‘‘Eles apareceram de todo lado, mandaram a gente se reunir no meio dos barracos e quem tentava conversar era agredido’’, afirmou. Depois de dominar os acampados, segundo ela, a polícia começou a rasgar as lonas dos barracos. ‘‘Não aguentei as pancadas que levei e desmaiei’’, disse.
Um dos sem-terra presos na Figueira, Liciel Laurindo, 38 anos, reafirmou a violência da PM na desocupação. Outro sem-terra levado para a delegacia contou que um ônibus, de pessoas uniformizadas, entrou na fazenda junto com a PM. ‘‘Acho que era pessoal da UDR (União Democrátiva Ruralista)’’, arriscou. O coordenador da UDR na região, Tarcísio Barbosa, não foi localizado pela Folha para falar sobre o assunto.
A Fazenda Figueira pertence ao pecuarista Marcelo Aguiar e foi invadida por cerca de 150 pessoas ligadas ao MST em outubro do ano passado. Ele os acusa de ter matado várias cabeças de gado da propriedade, que tinha cerca de 4,3 mil animais. Em janeiro passado Aguiar pediu reforço policial para conseguir vacinar o gado da fazenda.
Ontem, a mobilização da PM começou por volta das 3 horas. Policiais rodoviários fecharam todos os acessos à Figueira. Nem mesmo os advogados do MST, Teresa Cofré e Avanilson Alves de Araújo, conseguiram chegar até a propriedade. Um morador da vizinhança apontou um caminho alternativo. A menos de 200 metros da entrada da propriedade a PM colocou 11 homens para impedir a passagem dos jornalistas. Do local era possível ouvir crianças e mulheres gritando, e o disparo de alguns tiros.Em uma das áreas houve resistência e 10 sem-terra – sendo quatro crianças – e outros três policiais militares acabaram feridos
Marcos NegriniREAÇÃOSem-terra da Fazenda Figueira: na área foi registrada a maior resistência e houve feridosMarcos NegriniAdriano de Conto, 4 anos, teve a mão ferida: outras crianças também foram atingidas