Paulo Pegoraro
De Cascavel
A Polícia Militar (PM) cumpriu na manhã de ontem, em Catanduvas (50 quilômetros ao Sul de Cascavel), a primeira das várias ordens judiciais para reintegração de posse de propriedades rurais no Oeste paranaense. Foram utilizados aproximadamente 150 policiais para o despejo de 150 sem-terra, que haviam invadido uma área comum a três fazendas – Quinta da Azenha, Débora e Três Marias –, havia 9 dias. A Folha de Londrina/Folha do Paraná chegou ao local pouco depois da PM, que não permitiu que a reportagem tivesse acesso ao acampamento, mas ainda assim foi possível registrar com exclusividade alguns momentos da operação.
Alguns sem-terra disseram ter havido violência dos policiais. A informação foi negada por uma da líderes do grupo, Lucimara de Andrade, 19 anos, presa juntamente com outros 12 sem-terra. A PM apreendeu nos barracos três espingardas, um revólver e uma garrucha. No início da semana, fazendeiros e o prefeito Olímpio de Moura (PMDB) decidiram constituir uma ‘‘guarda municipal’’ para proteger propriedades e atuar em despejos. Durante a ação de ontem, eles permaneceram reunidos na Câmara, discutindo formas de viabilizar a ‘‘guarda’’.
Nenhum oficial da PM deu declarações. Os fazendeiros de Catanduvas atribuem a rapidez do cumprimento da ação de reintegração à ‘‘pressão’’ exercida pelo anúncio da criação da ‘‘guarda’’ (ou ‘‘milícia’’). A milícia, como idealizaram os fazendeiros, é inconstitucional, uma vez que a força só pode ser constituída para cuidar do patrimônio público e sem uso de armas de fogo. A decisão do governo de cumprir a ordem foi tomada no dia em que os ruralistas e o prefeito tornaram pública sua pretensão. No entanto, ela teria sido motivada pelo não-cumprimento, pelo MST, de acordo para não haver novas invasões no Estado.
A área que havia sido invadida pelos sem-terra, organizados pelo MST, é formada por reserva legal de matas (alteradas), em um ponto onde se juntam as divisas das fazendas (cada qual com 170 alqueires) de propriedade de José Manoel Mendonça, Carlos Alberto Zuquetto e Maria Alice Paciornik – cujo marido, Neri, é primo da secretária estadual de Administração, Maria Elisa Paciornik. Os proprietários afirmam que as terras são produtivas – ao contrário dos sem-terra, que dizem ter ocupado o ponto da reserva provisoriamente, por haver nela fontes de água.
Segundo a Folha apurou, os policiais, de vários batalhões, cercaram a área sem ser percebidos pelos sem-terra, antes das 6 horas. Em cerca de 2 minutos invadiram o acampamento, surpreendendo a maioria ainda dormindo nos barracos. Homens (95) foram rapidamente separados de mulheres (40) e crianças. Alguns sem-terra tentaram fugir, ferindo-se em espinhos de taquarais.

mockup