PM desocupa 6 fazendas em Querência
A PM sitiou e ocupou, no início da madrugada de ontem, a pequena Querência do Norte, cidade de pouco mais de 10 mil habitantes, no Extremo-Noroeste do Paraná. Oficiais de justiça fizeram cumprir mandados judiciais de reintegração de posse de seis fazendas ocupadas por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Anteontem o governo havia negado que faria a operação.
A ação mobilizou 635 policiais, de acordo com o comandante do 8º Batalhão da Polícia Militar em Paranavaí, tenente-coronel Alberto Augusto da Silva, responsável pela operação. Foram desocupadas as fazendas Transval, Rio Novo, Bandeirantes, São Francisco, Irmã Maria/Porongabinha e Florão. Foram retiradas pouco mais de 200 pessoas.
A única fazenda onde a polícia não encontrou sem-terra foi a São Francisco. O grupo que estava acampado na área saiu na noite anterior, indo para outra fazenda da região. De propriedade de Morival Favoreto, a fazenda era considerada produtiva somente com plantação de soja. Com a ordem de reintegração de posse em mãos, Favoreto ajuizou uma ação de indenização por perdas na lavoura e pelos maquinários que, segundo acusa, foram roubados.
Todas as propriedades possuem laudo de produtividade emitido pelo Incra. É o caso da Transval, de propriedade da família Pagano, invadida há 40 dias. A área, com pouco mais de 500 hectares, estava plantada com soja - com um campo experimental do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) - e milho. As lavouras de soja foram perdidas e, para colher o milho, os proprietários foram intimados a dar 10% do produto final para os sem-terra.
Na estrada que liga Querência do Norte a Santa Cruz do Monte Castelo, a polícia montou um bloqueio no trevo de acesso ao distrito de Icatu. Ninguém pôde passar por ali, com excessão dos proprietários rurais que necessitavam estar presentes na leitura da reintegração de posse, feita pelos oficiais de justiça. A alegação da PM é que era para proteger a integridade física dos jornalistas e das pessoas que tivessem acesso, no caso de um conflito. Com isso, os repórteres não puderam acompanhar a desocupação das fazendas. Somente às 9h10 o tenente coronel da Silva apareceu para dar informações.
A operação foi tranquila e correu sem incidentes. Após a reintegração de posse, policiais militares fizeram o cadastramento das famílias, que foram encaminhadas para cidades de origem, disse o militar. Até aquele momento, somente seis pessoas haviam sido encaminhadas para a delegacia de Loanda, onde foram autuadas por porte de armas ou porque havia mandado de prisão preventiva contra elas.
Muitos moradores aprovaram a ação, comentando que a ação dos sem-terra estava indo além dos limites, mas preferiram não se identificar, com medo de ficar marcado com a polícia. Um motorista de táxi, ao ser contratado por um grupo de jornalistas para uma corrida até uma das fazendas, foi enfático. Para quê vamos lá? As estradas estão fechadas e eles disseram que ninguém vai passar. Então, não temos porque ir. Não quero me indispor com eles.
Por volta das 13 horas, os últimos ônibus transportando os sem-terra e os caminhões com seus objetos saíram da cidade para levá-los aos municípios de origem. Enquanto isso, o contingente de policiais militares na praça central de Querência só aumentava, com soldados do Pelotão de Choque e do Comando de Operações Especiais (COE). Um helicóptero do governo do Estado fazia vôos rasantes, para alegria das crianças.
Reportagem de Alexandre Sanches e Lucinéia Parra (texto), Marcos Negrini e Milton Dória (fotos), em Querência do Norte; Dimitri do Valle (texto) e Albari Rosa (fotos), em Curitiba; Luciane Tonon, em Londrina.





