PM atirou em sem-teto durante despejo
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sexta-feira, 30 de maio de 1997
Agência Folha, de São Paulo 
SÃO PAULO - A Polícia Militar atirou contra os sem-teto na tentativa de desocupação da Fazenda da Juta, em São Mateus (zona leste de São Paulo), no último dia 20, segundo o Ministério Público. Esse é o resultado preliminar da análise das fitas com as imagens do confronto entre a PM e os invasores do conjunto habitacional. O resultado final da perícia das gravações deve ser divulgado na próxima semana. Oficiais que participaram da ação vinham sustentando que nenhum PM havia atirado. Ontem, por sua vez, o tenente Jacintho Del Vecchio Júnior, que comandou um dos pelotões da PM, admitiu, em depoimento na 8ª Seccional, que viu policiais atirando para o alto, mas que não tinha condição de identificá-los. O policial alegou que os PMs atiraram na tentativa de inibir a agressão dos manifestantes (que atiravam pedras) e de dispersar a multidão.
O exame das imagens está sendo realizado pela perita do Instituto de Criminalística (IC) de São Paulo, Glays Regina de Oliveira. Ontem, pela primeira vez, o promotor e o delegado encarregados do caso, Francisco José Tadei Cembranelli e Antonio Mestre Júnior, assistiram integralmente às fitas apreendidas pela perícia.
Depois de assistir às imagens do confronto, o promotor Cembranelli afirmou: Uma conclusão, uma evidente certeza, nós já temos: os disparos foram efetuados pela tropa (da PM) em direção à multidão. Vimos policiais com armas de fogo. Até o próprio áudio mostra que os disparos foram efetuados da direção em que a tropa se localizava. Isso é um elemento de extrema importância para as investigações, disse Cembranelli.
O promotor afirmou que as imagens serão confrontadas com os depoimentos das testemunhas para checar a veracidade das informações. Além disso, as cenas gravadas, estudadas quadro a quadro, poderão apontar possíveis atiradores. Na próxima semana, o delegado Mestre continuará ouvindo oficiais.
Cadastro - Terminou anteontem o cadastramento das famílias sem-teto da Fazenda da Juta, em Sapopemba, zona leste de São Paulo, na Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU). Depois do cadastramento de 38% deles no domingo, a maioria aproveitou a manhã do feriado de Corpus Christi para entrar na fila, que começou a se formar pouco antes das 5 horas.
Das 9 às 13h10, os 20 funcionários da CDHU já haviam cadastrado 246 famílias, além das 170 atendidas no domingo. Eu cheguei às 5 horas e fui o terceiro da fila, disse Ronilton Nunes, de 25 anos. Casado e pai de quatro filhos, ele tem uma renda mensal de R$ 400,00 e está morando de favor na casa de um cunhado. Depois de tudo o que a gente apanhou, tenho fé de que vamos conseguir nossas casas.
Segundo Roberto Arantes, do Departamento Social do CDHU, o cadastramento é uma forma de fazer um levantamento da condição sócio-econômica dos sem-teto. Participar do cadastramento não garante uma unidade habitacional, afirmou. Vamos fazer uma triagem e os que estiverem em condições entram no sorteio ou no programa de mutirões.


