PM apreende alimentos e prende 20 sem-terra após saques em Porto Feliz, SP
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quinta-feira, 27 de maio de 1999
Por José Maria Tomazela 
Porto Feliz, SP, 28 (AE) - Vinte sem-terra foram presos hoje (28) durante uma operação da Polícia Militar para recuperar alimentos saqueados de três caminhões, durante bloqueios feitos ontem (27), na Rodovia Castello Branco, em Porto Feliz, a 120 quilômetros de São Paulo. Quatrocentos policiais, incluindo homens do Pelotão de Choque da Capital, da Cavalaria e Canil, com o apoio de helicópteros, ocuparam e revistaram o acampamento "Nova Canudos", do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), instalado na margem do km 100 da Castelo.
Os sem-terra pretendiam resistir à ação, mas foram desaconselhados pelo senador Eduardo Suplicy (PT/SP), que esteve no acampamento. "Não se justifica que atinjam os direitos de outros", disse, referindo-se aos saques.
A ordem de busca e apreensão dos alimentos saqueados - carne bovina, macarrão e batata - foi dada pela juíza Daniela Bortolieri Ventrice, de Porto Feliz. A mesma juíza havia decretado o despejo dos sem-terra, quando eles entraram na Fazenda Engenho Dágua, há três meses, e mandara prender, na semana passada, o coordenador estadual do MST, Gilmar Mauro, acusado de furto.
Saques - Os policiais estavam também atrás de armas de fogo, que teriam sido disparadas durante os bloqueios da noite anterior, quando os 1.200 sem-terra fecharam as pistas da Castelo duas vezes, em protesto contra a prisão de 41 integrantes do movimento no Paraná.Não foram encontradas armas no local.No segundo bloqueio foram saqueados um caminhão-frigorífico com 12 toneladas de carne, uma caminhoneta-baú, transportando 1.900 pacotes de macarrão, e um caminhão de batatas.
O motorista que transportava a carne, Fábio Eduardo Duarte, reconheceu o professor universitário Marcelo Buzetto como integrante do grupo que o ameaçou com facões. Buzetto é formado em História pela Universidade de São Paulo (USP) e dá aulas na Uniban de São Bernardo do Campo. Ele foi preso de madrugada durante os bloqueios de estradas feitos pela PM para prender os autores dos saques.
Outras pessoas foram presas transportando a carne e o macarrão, roubado do motorista Antônio Carlos da Silva. Ele disse que ficou quase uma hora sob ameaça, enquanto o produto era descarregado no acampamento. Três carros dos sem-terra, sem documentos, foram apreendidos. Entre os presos, estavam a menor E.T.N., de 17 anos, e a Maria Dionísia dos Santos, de 75 anos, além de outras duas mulheres. Elas foram levadas para o Presídio Feminino de Votorantim. A menor, encaminhada ao Juizado da Criança e do Adolescente.
Na cadeia de Porto Feliz, os sem-terra foram colocados junto com outros 80 presos que aguardam julgamento. O professor universitário, que é militante do MST e faz parte do grupo de apoio aos acampamentos, dispensou o direito à cela especial.
Alimentos - O líder do MST, Gilmar Mauro, com o apoio da deputada federal Iara Bernardi e do estadual Hamilton Pereira, ambos do PT, tentou evitar a ocupação do acampamento pela Tropa de Choque, negociando a entrada de um grupo pequeno de policiais. Ele conseguiu que os 50 policiais encarregados da revista dos barracos entrassem desarmados. O comandante de Policiamento do Interior, coronel Júlio Gomes da Cruz, chefiou pessoalmente a operação, auxiliado pelo coronel João Oliveira Verlangieri, do comando regional.
A retirada dos alimentos encontrados nos barracos teve cenas dramáticas. Uma mulher agarrou-se ao balde com a carne em postas. Um coro de sem-terra gritava palavras de ordem, como "isso é covardia, as crianças vão ficar com fome" e "bandido é você FHC".
O coordenador do acampamento, João Paulo Rodrigues, organizou uma fila de crianças e entregou maços de macarrão que foram depositados nos pés dos policiais enfileirados na beira da rodovia, em posição de ataque. "O governo prometeu cestas básicas e não mandou", disse. A sem-terra Raquel Luzia Ferreira da Silva, com um bebê no colo, chorou.
"Esse governo não tem coração. O que vou dar pros meus filhos?" Uma criança caiu de um barranco e teve que ser atendida pela ambulância da PM, enquanto outras recolhiam batatas espalhadas pelo chão. O coronel Cruz não escondeu seu constrangimento. "Se alguém acha que a gente faz isso com outro tipo de sentimento, senão o do cumprimento de uma ordem, está enganado. Faço com o coração na mão." Ele se disse sensibilizado, principalmente depois que uma criança agarrou sua mão. "Tenho um filho de três anos."
A carga apreendida, colocada em dois caminhões, foi levada para a Delegacia de Porto Feliz. Os autos de apreensão irão instruir os processos por roubo, aberto pelos delegados José Eduardo Martins e Nures Pegoretti contra os sem-terra.
Segundo Gilmar Mauro, ainda hoje advogados do MST tentariam relaxar os flagrantes para libertar os presos. Ele transmitiu ao comandante da PM denúncia de que alguns policiais rodoviários levaram para eles parte da carne saqueada do caminhão. "Depois de pegar a carne os policiais disseram que agora estava zero a zero", detalhou Mauro. Cruz afirmou que a denúncia será apurada com rigor.


