Tasso Marcelo/Agência Estado
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)
‘‘Violenta, perversa e covarde’’Na sentença, em que condenou Paula Thomaz a 18 anos e seis meses de prisão, o juiz José Geraldo Antônio usou exatamente os mesmos termos que os da condenação de Guilherme de Pádua ao se referir à personalidade da réEm um dos mais emocionantes julgamentos já realizados no Rio, Paula Nogueira de Almeida Thomaz, de 23 anos, foi condenada ontem a 19 anos de prisão por co-autoria no assassinato da atriz Daniella Perez, ocorrido em 28 de dezembro de 1992. A pena básica foi a mesma aplicada em janeiro ao seu ex-marido, o ator Guilherme de Pádua, pelo mesmo crime. Por ser menor de 21 anos à época do crime, Paula teve, como atenuante, a pena reduzida para 18 anos e seis meses de prisão. O juiz José Geraldo Antônio, presidente do 2º Tribunal do Júri, leu a sentença às 9h02 e foi aplaudido de pé pelo plenário. O resultado foi apertado: dos sete jurados, três votaram a favor da absolvição da ré. O curioso é que os três primeiros votos foram pela absolvição. A condenação ganhou de virada.
Assim que foi anunciado o resultado do júri, a novelista Glória Perez recebeu abraços emocionados do filho, Rodrigo, do irmão, o médico Saulo Ferrante, e da sobrinha Bárbara. Outros parentes e amigos, a maioria artistas da Rede Globo, também se confraternizaram com a mãe de Daniella. No plenário, mais de 300 pessoas fizeram fila para cumprimentar a novelista. Sempre segurando as sapatilhas que pertenceram a filha e uma medalha com a foto dela, Glória estava exausta após 43 horas de julgamento. ‘‘Fiquei satisfeita, era o que eu esperava’’, desabafou. Na sentença, o juiz José Geraldo Antônio usou exatamente os mesmos termos que os da condenação de Pádua.
O juiz considerou que ‘‘a ré exteriorizou uma personalidade violenta, perversa e covarde, quando contribuiu, consciente e voluntariamente, para destruir a vida de uma pessoa indefesa, sem nenhuma chance de escapar ao ataque de seus algozes, pois, além da desvantagem na força física, o fato se desenrolou em local onde jamais se ouviria o grito desesperador e agonizante da vítima’’.
Festa de um lado, tristeza de outro. A mãe de Paula, Maria Aparecida de Almeida, de 61 anos, sempre confortada por amigos, passou mal. Ela e o marido, Paulo Almeida, só deixaram o tribunal às 10h30. Os advogados Augusto Thompson e Carlos Eduardo Machado, que defendem Paula, estavam inconsoláveis. ‘‘Esse placar apertado do júri é muito mais doloroso’’, admitiu Thompson. Os advogados de Paula disseram que tentarão anular o julgamento, arguindo nulidades. ‘‘A decisão do júri foi manifestamente contrária aos autos’’, disse Thompson. Paulo Almeida defendeu o recurso. ‘‘Minha filha é inocente’’.
Já o promotor Maurício Assayag, ao comentar o resultado apertado do julgamento, considerou ‘‘democrática decisão do júri’’. E citou Nélson Rodrigues: ‘‘toda a unanimidade é burra’’. Para Glória Perez, o fato de três jurados terem votado a favor da absolvição de Paula Thomaz é indiferente. ‘‘Eles (Paula e Pádua) podem sair da cadeia, a lei ser benevolente, mas terão a vida inteira este selo na cara, de assassinos’’. O advogado de Pádua, Paulo Ramalho, disse que o resultado apertado mostra que a lei precisa ser mudada. ‘‘Nos países anglo-saxônicos, uma pessoa só é condenada quando a decisão dos jurados é unânime’’.
O ator Raul Gazolla, marido de Daniella Perez, que não esteve no julgamento de Pádua, mas compareceu anteontem à noite ao 1º Tribunal do Júri, e deixou o plenário às 4h20, sem saber do resultado do julgamento. ‘‘Estou muito emocionado, porque é muito difícil conviver com essas recordações’’. Gazolla chorou quando o promotor Assayag mostrou a camisa preta perfurada de Daniella, ‘‘a única coisa que restou da vítima’’.
O clima do julgamento começou a esquentar às 20h55, quando o advogado Hugo da Silveira começou a prestar depoimento. Nervoso, às vezes caindo em contradição, Silveira incriminou Paula. Disse que era ela a mulher de rosto redondo que vira num Santana com um homem perto do matagal na Rua Cândido Portinari, na Barra da Tijuca, onde foi encontrado o corpo de Daniella. Disse ainda que não fora submetido a exame de vista, mas garantiu que só usa óculos por causa de ‘‘cansaço nas vistas’’. Esqueceu detalhes, e só lembrou de ter feito, acompanhado de peritos, um exame que acredita ser de visibilidade do local. As contradições foram exploradas por Carlos Eduardo Machado. ‘‘O erro em uma palavra, em uma vírgula, não muda o conteúdo das declarações da testemunha’’, rebateu o promotor Assayag.
A jornalista Paula Máiran, testemunha de defesa, admitiu que teve que usar documento falso para ser presa como estelionatária e fazer reportagem com Paula Thomaz, na Divisão de Capturas-Polinter, onde estava presa. A repórter não quis revelar o nome da autoridade que colaborou com ela, alegando sigilo profissional. O promotor Assayag pediu extração de peças do processo para que a jornalista responda por falsidade ideológica.
Nos debates, a impressão no plenário era que a defesa tinha ampla vantagem. Ao contrário do que normalmente ocorre no júri, a defesa procurou explorar argumentos; os promotores, a emoção. Augusto Thompson, de 65 anos, 44 de júri, foi a estrela do julgamento. Calmo, procurou desmontar todas as peças de acusação. Já Assayag estava agressivo: chamou a mãe de Paula, Maria Aparecida, de ‘‘megera’’, disse que Pádua era ‘‘otário’’ e se referiu à ré ironicamente como ‘‘coitadinha, gravidinha’’. Até o comedido Lavigne extrapolou ao se referir a Thompson. ‘‘Quero ver o velhinho hoje defender essa mocinha inocente’’. Thompson usou uma lousa, parecia dar uma aula. ‘‘Ele é uma escola de júri, em quem a gente procura se mirar’’, reconheceu o promotor José Mui¤os Pi¤eiro Filho, no final do julgamento.
Durante a madrugada, fãs tentaram invadir o tribunal principalmente depois da chegada de Caetano Veloso e da sua mulher Paula Lavigne, às 19h20 de anteontem. ‘‘Estou impressionado com essa experiência de tribunal, mas, apesar de ser amigo da Glória, mas não deixei levar por nenhuma tendência’’. Caetano deixou o tribunal às 4h20, depois da exposição do sogro, o advogado Artur Lavigne. Nos intervalos do júri, Caetano distribuia autógrafos e tirava fotos. Além do compositor, se misturaram com sem-terra e mães de desaparecidos, os atores Paulo César Grande, Cláudia Abreu, Marieta Severo, Mônica Torres, Isadora Ribeiro, Paulo Burlamaqui, Eri Johnson, Ricardo Macchi, Vitor Fasano, Marcelo Antoni, Lady Francisco, Cláudia Mauro, entre outros.

mockup