Playboy do Brasil consegue todas as estrelas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de abril de 1999
Por John Miller, da REUTERS (assinatura obrigatória) 
São Paulo (AE-REUTERS) - Qualquer editor da revista Playboy sabe que simplesmente encher as páginas com fotos de belas mulheres nuas não é suficiente para fazer os números da revista sumirem das bancas. O que realmente é necessário é um ensaio erótico de uma grande celebridade. E em nenhum outro lugar onde atua o grande império da Playboy, que abrange 17 nações, as estrelas estão tão dispostas a tirar a roupa para seus fãs do que no Brasil, onde a admiração pelas formas humanas compete com o futebol como o principal passatempo.
Cantoras, atrizes, atletas olímpicas e até mesmo ativistas políticas fazem fila para aparecer nas páginas brilhantes da popular revista masculina. Tal falta de modéstia dos ricos e famosos no Brasil ajudou a tornar sua edição da Playboy a número 1 em vendas fora dos Estados Unidos.
Por anos a Playboy serviu como um atalho para o sucesso para candidatas a estrelas. Marilyn Monroe, Kim Bassinger e Sharon Stone começaram suas carreiras em suas páginas. Mas as edições da Playboy nos Estados Unidos, Alemanha e em outros países tendem a exibir atrizes desconhecidas tentando deixar o circuito de filmes B ou estrelas maduras tentando reaquecer suas carreiras.
No Brasil, a Playboy traz as maiores estrelas no topo da popularidade. "A Playboy americana também procura pelas grandes estrelas, mas a cultura brasileira torna isso muito mais fácil para nós", disse Ricardo Setti, editor da Playboy do Brasil.
"A cultura norte-americana do politicamente correto e o feminismo militante são muito fortes e uma grande estrela que consiga US$ 20 milhões por um filme não irá posar nua por uma fração dessa quantia se isso for prejudicar sua imagem pública e desagradar os patrocinadores", ele disse.
Longe de prejudicar imagens, a Playboy tem prestígio no Brasil
um país famoso por suas novelas, pelo Carnaval e por revelar os biquínis pequenos. Um ensaio fotográfico na Playboy é uma passagem obrigatória para as estrelas brasileiras, sinal de que elas triunfaram na competitiva indústria do entretenimento.
E a competição está se aquecendo conforme se aproxima o milênio. A Playboy está considerando a idéia de oferecer a capa da edição de janeiro do ano 2000 para a estrela cuja edição de capa tenha vendido mais cópias através da história de 24 anos da Playboy no Brasil.
Até recentemente a modelo Adriane Galisteu, namorada da última lenda de Fórmula 1 brasileira, Ayrton Senna, parecia ter o prêmio em mãos com sua edição de agosto de 1995 que vendeu um milhão de cópias. Mas Suzana Alves, uma bailarina de 22 anos que se transformou numa rainha "light" do sadomasoquismo, acaba de quebrar esse recorde, vendendo 1,2 milhão de cópias da edição de março de 1999. Alves interpreta a sedutora "Tiazinha" em um popular show de variedades da TV.
Toda semana ela aparece em roupas íntimas sumárias, com um chicote e uma máscara de Zorro na frente de dois voluntários que são presos a cadeiras reclináveis usando apenas sunga. Se a audiência de jovens falhar em responder às perguntas feitas corretamente, a "Tiazinha" dá o castigo: arranca pêlos das pernas e do peito dos voluntários com tiras adesivas.
"Meu personagem é ideal para uma aparição da Playboy", disse Alves. "Se eu não tivesse feito isso meus fãs pensariam que fiquei louca". A jovem estrela disse que não foi apenas o dinheiro que finalmente convenceu-a a se despir de sua marca, o que deixa pouco do principal símbolo sexual do Brasil a ser revelado. "Todas querem aparecer na Playboy. Depois da quinta vez que eles me convidaram eu pensei que perderia minha chance, que esta seria a última oferta", ela disse.
Mesmo assim, o dinheiro conta muito. A Playboy é publicada no Brasil pelo poderoso Grupo Abril, a maior editora da América Latina. Com o apoio de uma poderosa editora como essa, pode ser oferecido a grandes estrelas quase US$ 500 mil, incluindo taxas para posar e participação nas vendas.
Devido à desvalorização em janeiro, os números chegaram perto de US$ 800 mil. Poucas outras edições da Playboy fora dos Estados Unidos podem contar com tais tentações. O preço de capa da revista também é alto, custando US$ 4 em um país onde o salário mínimo é de apenas US$ 75 por mês. Alguns brasileiros de baixa renda, ansiosos por darem uma olhada no número de março com a "Tiazinha", pagaram 50 centavos para homens que alugavam suas cópias por três minutos de visão da estrela.
Gary Cole, diretor de fotografia do quartel-general da Playboy em Chicago, disse que está se tornando cada vez mais importante ter uma face conhecida na capa para estimular as vendas. Ele admite que o Brasil está no topo neste departamento. "No Brasil
há uma atitude mais relaxada em relação à nudez. As coisas são um pouco mais difíceis nos Estados Unidos, mas nós temos um bom número de sucessos", disse Cole, afirmando que a revista recentemente trouxe a super-modelo Cindy Crawford, cerca de dez anos depois de sua primeira aparição na Playboy.
Mas Cole disse que a Playboy nem sempre precisa de uma celebridade da TV ou de uma modelo famosa. Na verdade, uma das mais procuradas modelos nos tempos recentes tem sido a ex-estagiária da Casa Branca, Monica Lewinsky, que recusou todas as ofertas até agora. "Ela agora realmente só tem duas chances. Pode tentar fugir, se esconder e esperar que o público a esqueça
ou pode fazer algo como aparecer na Playboy", disse Cole.
"Achamos que as pessoas estariam muito interessadas em ver Monica. Achamos que ela é uma garota muito bonita - mas teríamos que trabalhar com seu peso". Não sendo uma surpresa, o Brasil teve melhor sorte em levar a política para suas páginas.
O mais perto que já chegou de uma Monica Lewinsky foi um ensaio em 1992 de Wanya Guerreiro, que ao mesmo tempo tinha caso com o irmão e com o chefe de equipe do ex-presidente Fernando Collor. Guerreiro aparecia na capa da edição de junho de 1992 sob o título "Escândalo Nacional".
Em 1997, a Playboy criou polêmica entre os setores de esquerda do Brasil quando convenceu uma proeminente participante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra a posar nua. Devido às fotos, o ex-presidente José Sarney, um centrista, escreveu uma coluna num jornal defendendo o direito da mulher de aparecer na Playboy sem precisar da aprovação dos líderes do movimento. "Nós tivemos nossas pequenas Monicas Lewinskys", disse Setti, da Playboy do Brasil.


