São Paulo- Mais de cem espécies de plantas utilizadas pelo grupo indígena brasileiro Krahô, habitantes da região norte do País, poderão se tornar medicamentos industrializados a médio prazo. Entre os vegetais, alguns são utilizados pelos índios para aumentar a resistência física, diminuir o apetite e até como contraceptivos, enquanto outras têm características alucinógenas.
Ao que tudo indica, as plantas têm uma influência direta no sistema nervoso central, podendo levar, por exemplo, a descoberta de medicamentos contra o mal de Altzaimaer, responsável pela degeneração do sistema nervoso.
A descoberta é fruto de uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e poderá resultar na criação da primeira patente na área médica para uma tribo indígena. O projeto, desenvolvido pelo Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), mapeou as principais plantas utilizadas pelos índios da etnia.
Os krahôs vivem numa área de 302 mil hectares no cerrado do Tocantins, região norte do Brasil, e estão divididos em 16 aldeias, totalizando 1800 índios. ‘‘Procuramos uma tribo totalmente isolada, que preservasse a tradição dos xamãs (como são chamados os curandeiros indígenas) e não tivesse contato com a medicina tradicional, por isso, optamos pelos krahôs que, ao contrário de muitas tribos da Amazônia, não têm contato com a civilização por viverem em uma região de difícil acesso’’, explica a bióloga Eliana Rodrigues, uma das responsáveis pelo projeto. Segundo ela, o material recolhido é suficiente para sustentar pesquisas por um período de 20 anos.
A pesquisa começou há dois anos, com o trabalho de campo da bióloga. Durante este período, ela visitou mais de dez vezes a tribo e catalogou mais de cem diversidades de plantas empregadas por sete xamãs em rituais de cura na aldeia. Após a coleta, o Instituto de Botânica do Estado de São Paulo identificou 164 espécies vegetais da floresta brasileira utilizadas com fins medicinais.
Para chegar à fase de fabricação de um eventual medicamento, cada planta precisará de investimentos da ordem de R$ 2 milhões. ‘‘O fato de termos a utilização prévia dessas plantas pelos índios diminui consideravelmente os custos de pesquisa’’, afirma.
A universidade busca agora parcerias com grandes laboratórios para dar continuidade às pesquisas com os fitoterápicos. ‘‘Estamos ainda em fase de negociação, mas o projeto tem despertado o interesse de grandes fabricantes de medicamentos’’, diz a bióloga.
No entanto, para que a parceria com qualquer empresa possa se tornar realidade, os pesquisadores ainda têm um grande desafio pela frente. ‘‘Queremos preservar o direito dos índios, assegurando-lhes a propriedade intelectual desses medicamentos’’, explica Eliana. ‘‘No entanto, o Brasil não tem uma legislação que trate especificamente dos direitos indígenas, dificultando continuidade do trabalho’’.
Ao que tudo indica, um dos maiores fabricantes de medicamentos no Brasil, deverá financiar as pesquisas. No entanto, a universidade preferiu não confirmar a informação. ‘‘Ainda temos que superar as dificuldades burocráticas antes de falarmos sobre o futuro’’, desconversa Eliana.
No caso de se registrar uma patente dos medicamentos, esta será dividida em partes iguais entre os índios, a universidade e o laboratório. A indústria farmacêutica que se interessar em financiar o projeto, terá que obrigatoriamente reproduzir as plantas na própria aldeia dos krahô. ‘‘Seria um grande passo para a indústria de remédios no Brasil, uma oportunidade única’’, aposta a bióloga.

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