Planos de paz dos EUA enfrentam obstáculos no Oriente Médio
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de agosto de 1999
Por Kim Ghattas 
Beirute, 30 (AE-IPS) - Surgiu hoje (30) um novo obstáculo no caminho para a paz no Oriente Médio, apesar de os Estados Unidos aumentarem a pressão para que Israel e os Palestinos cheguem a um acordo até que a secretária de Estado Madeleine Albright visite a região esta semana.
A última rodada de negociações entre Israel e a Autoridade Nacional Palestina emperrou nesta segunda-feira por causa, principalmente, da questão dos presos políticos palestinos nas cadeias israelenses. As autoridades de Israel se negam a libertar suspeitos de terem promovido ataques armados.
Pelo acordo de paz Wye River, assinado em outubro, Israel deveria libertar 750 detidos, mas até agora só soltou 250, a maioria delinquentes comuns.
Agora o primeiro-ministro Ehud Barak usa a questão como objeto de barganha, para a irritação dos palestinos.
O ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deixou de aplicar o acordo no ano passado, não avançando na retirada dos soldados israelenses de territórios palestinos ocupados porque, alegou, a AP não havia reprimido os "terroristas" que ameaçavam Israel.
Agora, depois de semanas de otimismo e cortesias entre as partes envolvidas - Egito, Israel, Líbano, AP e Síria -, o ambiente se deteriora rapidamente e oscila entre o desafio e tímidas declarações de esperança, pontualizadas por uma guerra de palavras.
O ministro da Informação da Síria, Mohammed Salman, disse em Damasco na semana passada que seu país está preparado para trabalhar pela paz.
"Trabalharemos para que a missão de Albright seja um êxito. Se for perdida essa oportunidade para a paz, não será responsabilidade da Síria", declarou.
Albright chegará à região na quarta-feira e em cinco dias visitará Egito, Israel, Jordânia, Marrocos, os territórios palestinos e Síria.
Mas a consolidação da confiança, um componente essencial da paz, ainda não estará na ordem do dia. O diário sírio Tishrin escreveu que se Barak levar à sério a paz serão removidos os obstáculos agora que ser retomarão as negociações com a Síria e o Líbano.
No Líbano, a rádio Lebanese International Broadcasting International (LBCI) estava sujeita a ser suspensa do ar por três dias por ter infringido involuntariamente o boicote contra Israel que impera neste país.
Um de seus correspondentes em Amã, que cobria a inauguração de uma ponte entre Jordânia e Israel, colocou seu microfone em frente aos oradores. Um deles, o chanceler israelense David Levy
pediu ao Líbano que se somasse às gestões de paz.
O comentário foi transmitido pela LBCI e por outros meios de comunicação. A emissora reiterou publicamente seu apoio ao boicote contra Israel, mas a sanção parece inevitável.
"Os libaneses se esforçam em declarar-se inimigos de Israel por serem os mais fracos no conflito" regional, opinou o analista político Joseph Bahout.
Para o Líbano, a paz só virá quando Israel se retirar total e incondicionalmente, como exige o Conselho de Segurança da ONU, da zona de 850 quilômetros quadrados que ocupa no sul do país desde 1978.
E desde 1985, o Hizbollah (Partido de Deus) luta para expulsar os israelenses da zona ocupada e tem sido frequentemente usado pela Síria como peão para obrigar Israel a abandonar as Colinas de Golan, que ocupou em 1967.
Há 10 dias, uma bomba detonada numa rodovia próxima à cidade de Sidão matou Alí Deeb, chefe militar do Hizbollah. Apesar de Israel não ter assumido a responsabilidade, declarou sua satisfação pela morte do guerrilheiro.
O atentado provocou nos dias seguintes ferozes combates entre as forças israelenses e o Hizbollah, que causaram a morte de três guerrilheiros e dois soldados israelenses.
Em Israel os enfrentamentos foram recebidos como mais uma razão para acelerar a retirada de suas forças do Líbano.
"Israel irá se retirar do Líbano, mas isso não significa que haverá um tratado de paz entre os dois países", disse Mustafá Raad, deputado do Hizbollah no parlamento libanês.
O secretário-geral do Hizbollah, Sayyed Hassan Nasrallah, pediu aos refugiados palestinos que peguem em armas e lutem pela liberdade de seu país "porque devem viver com dignidade e em sua própria terra", disse numa cerimônia de homenagem a Deeb.
"Apesar de ninguém dizer expressamente, fica claro que a função militar do Hizbollah termina com o fim da ocupação israelense. A libertação da Palestina está nas mãos dos palestinos", comentou o analista político Joseph Bahout.
Muitas vezes, a resistência de Israel de abandonar o sul do Líbano é justificada pelo temor de que o Hizbollah continue sua luta contra o "inimigo sionista" depois da retirada das forças de ocupação.
Junto com seu braço militar, o Hizbollah criou também uma base política e social, e reitera que continuará combatendo "até que o último soldado israelense abandone o Líbano", o que indicaria que a luta teria chegado ao seu fim.
Enquanto isto, os observadores acreditam que o Hizbollah continuará com suas ações guerrilheiras com menor intensidade para permitir a retomada das negociações entre Israel e Síria.
Mesmo assim, os refugiados palestinos no Líbano são cada vez mais considerados como uma fonte de inquietação desde que Barak anunciou no mês passado que a solução da situação deles deve ser encontrada nos países que os acolheram.
"Não haverá segurança para Israel enquanto não voltarem os refugiados palestinos", afirmou o porta-voz da Força das Nações Unidas para o Sul do Líbano, Timor Goksel.
Os libaneses são contrários a que os palestinos residam neste país. Para muitos, os refugiados foram a raiz da guerra civil que explodiu quando milícias cristãs começaram a lutar contra guerrilheiros palestinos assentados no Líbano em meados dos anos 70.
Eles também temem pelo delicado equilíbrio entre as comunidades de libaneses muçulmanos e cristãos, já que a maioria dos 350.000 refugiados palestinos são islâmicos.
Nas últimas semanas, políticos libaneses rechaçaram um assentamento dos palestinos no Líbano.
Mas Bahout tem uma opinião diferente. "Os libaneses terão que aceitá-los. Os refugiados não voltarão e devemos começar a pensar como resolver o problema. Este será o preço que devemos pagar por sermos fracos, mas seguramente receberemos ajuda financeira em troca", disse.
"Se os palestinos são fonte de tensão no Líbano, a Síria estará bem posicionada para continuar oferecendo sua presença militar no país a fim de assegurar a paz e a tranquilidade", acrescentou.
Apesar de tudo, a região tem "todos os elementos para fazer a paz. Israel e Síria sabem que a porta da oportunidade é estreita
e que o processo deve começar. Uma vez que o façam, creio que as coisas se desdobrarão com rapidez. De outra forma, não há maneira de se prever o que poderá ocorrer", acrescentou Bahout.


