São Paulo, 09 (AE) - A proposta de dolarização da economia argentina (adoção do dólar como moeda do país) pode ser apresentada, oficialmente e de forma simultânea, em abril ao Federal Reserve (Fed) e ao Tesouro dos Estados Unidos.
Um dos pontos da proposta, ainda em estudo, seria a troca de US$ 16 bilhões que o Banco Central da República Argentina (BCRA) tem em bônus do Tesouro americano por notas (em dólares).
Fontes do BCRA disseram à Agência Estado, entretanto, que essa possibilidade está fora de cogitação, já que, atualmente, o BCRA recebe entre US$ 700 milhões e US$ 800 milhões por ano em rentabilidade por conta dos T-Bonds. "Se o BC viesse eventualmente a pedir essa troca, estaríamos perdendo uma rentabilidade que é superior ao nosso orçamento anual", disse uma fonte do BCRA, por telefone, de Buenos Aires.
Essa fonte confirmou que a proposta de dolarização da economia argentina - da qual participam o BCRA e a Secretaria de Planejamento, cujo titular, Jorge Castro, é um dos principais adeptos da troca do peso pelo dólar e da criação de uma moeda única para os países do Mercosul - ainda está em proceso de elaboração.
A fonte do BCRA negou que a troca de T-Bonds por dólares esteja definida no plano, embora outras autoridades do BC argentino tenham informado sobre essa possibilidade.
Atualmente, os dólares que a Argentina necessita para manter a conversibilidade - paridade de um por um entre o peso e o dólar, com o qual as reservas em divisas têm de ser pelo menos igual ao volume de pesos em circulação -, em vigor desde abril de 1991, estão investidos em sua maioria em bônus do Tesouro americano. Ou seja, se a Argentina viesse a trocar os pesos em circulação por dólares, o dinheiro necessário poderia ser conseguido trocando os T- Bonds por notas em dólares.
"Antes disso, precisamos, no mínimo, negociar com o governo norte-americano", explicou a fonte do BCRA. Um fator que pode acelerar a proposta argentina de dolarização de sua economia é a aproximação das eleições presidenciais. "Temos de mostrar à comunidade financeira internacional, e ao mesmo tempo tranquilizá- la, que a Argentina não mudará a sua política econômica. Por isso, uma das saídas para a continuidade da estabilização do país é a dolarização e, de alguma forma, a renúncia de sua política monetária independente", disse a fonte do BCRA.
De acordo com ele, a adoção do dólar evitaria qualquer risco de desvalorização. Ele esclareceu que, para isso, terá de haver consenso dentro do país, inclusive com apoio dos partidos de oposição e da sociedade civil. "No momento, a oposição faz apenas silêncio sobre o assunto", explicou essa fonte.
Do ponto de vista operacional, o BCRA poderia fazer a troca do peso pelo dólar de forma gradativa, enquanto os depósitos e créditos dos bancos em peso seriam convertidos em dólares em uma data pré-determinada.
Atualmente, o sistema financeiro argentino permite depósitos, créditos e transações em dólares, desde o pagamento de uma corrida de táxi até a compra de uma casa. Por isso, a idéia argentina é emplacar uma espécie de acordo banco-a-banco, sistema que os EUA têm com outras instituições finaceiras.
Os argentinos citam como exemplo o acordo entre o Fed e o Banco (Central) do México. Para colocar em andamento essa transformação, vinculando a economia argentina ao dólar, seria necessário pelo menos dois anos.
Mas os EUA se opõem totalmente à dolarização argentina e, ainda mais, da região. O presidente do Fed, Alan Greenspan, disse recentemente que os EUA não querem transfomar-se em "emprestadores de última hora". O Fed, por exemplo, é contrário ao estabelecimento de um sistema monetário no estilo europeu, com uma moeda única. O BC americano não está disposto a ceder a sua soberania em relação ao dólar.
Já o Tesouro não é tão contrário. Até porque, a idéia não é nova. O Panamá já pratica a dolarização com certo sucesso. Isso explica, por exemplo, por que o país do Canal pratica há 30 anos taxas de juros de apenas um dígito.

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