Planalto sabia que caminhoneiros iam parar
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de julho de 1999
Por Mariângela Herédia e Lige Albuquerque 
Brasília, 01 (AE) - O governo federal sabia da paralisação dos caminhoneiros quinze dias antes do início do movimento. A Casa Militar teve acesso e enviou ao ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, panfletos falando sobre a greve, mas as pistas que poderiam ter evitado o caos dos quatro dias de fechamento das estradas foram ignoradas. "Como nos últimos anos teve muita panfletagem que não deu em nada, o movimento em tese acabou surpreendendo pelo vulto porque não se tratava da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) e não era de um sindicato formal", admitiu o ministro.
Padilha afirmou que o panfleto continha todas as reivindicações reclamadas pelos caminhoneiros e conclamava os trabalhadores para ingressarem no movimento. "O panfleto só dizia: integre-se ao movimento, que era uma questão de sobrevivência, mas não tinha data e não dizia que iam apresentar ao governo." Segundo o ministro, ele não entendeu que o ato iria tomar aquela proporção "porque não havia uma entidade assinando".
Estima-se que a paralisação tenha provocado um prejuízo de cerca de R$ 100 milhões só na agricultura. Apesar da greve ter começado no domingo à noite, as negociações só começaram no dia seguinte. "Na segunda-feira de manhã, soube pelo Departamento Nacional de Estradas e Rodagens (DNER) que havia engarrafamentos nas estradas do Rio e São Paulo, mas esses congestionamentos estão dentro da perspectiva", disse Padilha.
Incógnita - O ministro afirmou ainda que o governo não sabia com quem negociar no início da paralisação. "Não era com o Clésio (Andrade, presidente da CNT), não era com o presidente da NTC (Associação Nacional dos Transportes Rodoviários de Cargas), então quem era?"
Segundo Padilha, o presidente do movimento União Brasil Caminhoneiro, Nélio Botelho, foi um dos primeiros a entrar em contato com ele para o início das negociações. Foi marcada, então, uma primeira reunião em São Paulo, na terça-feira.
Chegando lá, o ministro foi surpreendido com o grande número de entidades que ele e seu ministério desconheciam. "Apareceram mais de 50 e todos dizendo-se representantes de entidades nacionais ou regionais, que não podiam, por isso, deixar a sala", contou.
Apesar de algumas lideranças do movimento terem afirmado que o ministro não os teria recebido, Padilha negou. "Desafio quem quer que seja a comprovar que buscou contato comigo e não tenha sido atendido."
Exército - Na segunda-feira, quando soube do movimento, o presidente Fernando Henrique Cardoso, segundo o ministro, quis saber se ele tinha convicção que resolveria o problema por meio da negociação. A resposta foi positiva. Mesmo assim, o governo começou no mesmo dia a articular um plano para frear o movimento com o Exército, caso necessário.
"A Casa Civil, o Ministério da Justiça e a área de inteligência do governo federal traçaram uma estratégia para garantir o abastecimento e o direito de locomoção do cidadão", afirmou Padilha.
Apesar de toda essa articulação relatada por Padilha, apenas no quarto dia de greve, o presidente percebeu a gravidade do movimento e resolveu reunir seus ministros. Segundo o ministro dos Transportes, foi nessa reunião que o governo desistiu de usar o Exército para desobstruir as rodovias e resolveu insistir na negociação. "O plano era que, caso todas as discussões falhassem, o Exército entraria em ação ainda na quinta-feira pela manhã", disse.
Desgaste - Setores do PMDB acreditam que as informações surgidas durante a greve, de que Padilha havia recusado-se a receber representantes dos caminhoneiros, foram plantações para criar uma imagem de desgaste do ministério dos Transportes. Padilha esteve conversando com o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), com o líder do partido na Casa, Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) e o articulador do partido no Palácio do Planalto
Moreira Franco, sobre o assunto. Todos decidiram ignorar o tema.
"No processo político sempre haverá alguém que procura fazer este tipo de coisa", disse o ministro. "A única vez que fui procurado pelo líder dos caminhoneiros foi em janeiro do ano passado", acrescenta Padilha, que não pretende descobrir quem teria veiculado as informações que considera "plantação". "O tiro saiu pela culatra", ironiza Padilha.
Pela avaliação de integrantes do PMDB, alguém dos partidos aliados do governo poderia ser o responsável pelas informações repassadas à imprensa. Mesmo assim, resolveram colocar um ponto final no assunto para evitar um maior desgaste nas relações.


