Planalto libera R$ 600 milhões do FAT
Governo usa verba do Fundo de Amparo ao Trabalhador para ajudar os flagelados da seca em frentes de trabalho
Doca de Oliveira
e Isabel Braga
Agência Estado
O presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou ontem em Brasília a liberação de R$ 600 milhões do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para financiar a abertura de novas frentes de trabalho nos municípios atingidos pela seca no Nordeste. O governo já havia que antecipado que usaria verbas do FAT para ajudar os flagelados. A expectativa é que o repasse de recursos, R$ 80,00 por trabalhador alistado, seja feito a partir do dia 30 deste mês. ‘‘É preciso que o Nordeste perceba que o governo está trabalhando intensamente’’, afirmou o presidente.
O governo também decidiu dar prioridade a emendas de parlamentares ao Orçamento voltadas para essas regiões. Segundo o ministro do Planejamento, Paulo Paiva, serão liberados R$ 231 milhões, recursos até então contingenciados. Para melhor acompanhar a execução das medidas já anunciadas, o governo passará a usar uma frota de 60 automóveis equipados com antenas parabólicas e computadores. Os veículos ficarão espalhados pelo Nordeste, trocando informações via satélite com os órgãos envolvidos no combate à seca, e, segundo Paiva, terão um custo de R$ 60 mil para o governo. O ministro não quis explicar como calculou esse custo. ‘‘Temos que fazer acontecer e, quando as coisas estiverem erradas, é preciso dizer’’, comentou Fernando Henrique. O presidente voltou a defender o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco como uma solução estrutural para o problema da seca.
Ontem, Fernando Henrique Cardoso reuniu ministros e secretários de governo para fazer o primeiro balanço, em público, das ações contra a seca. O presidente contabilizou investimentos de R$ 824 milhões, divididos entre perfuração e recuperação de poços, distribuição de cestas básicas, instalação de dessalinizadores etc. ‘‘Muita coisa está sendo feita, o que não quer dizer que quem esteja no Nordeste possa se consolar com isso’’, disse.
‘‘A população do Nordeste não está sozinha, nós temos um compromisso e vamos seguir em frente’’, acrescentou, ressaltando que ‘‘não há motivos para saques’’. O presidente disse que as últimas informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam o declínio do fenômeno climático El Ni¤o, cujos efeitos, segundo ele, devem desaparecer ao longo deste mês.
‘‘Poderemos ter chuva na Zona da Mata’’, afirmou. ‘‘O temor já pode se dissipar, o que não quer dizer que não devamos continuar ativos’’, disse, referindo-se à expectativa de um agravamento da estiagem a partir de julho.
FHC afastou a possibilidade de cheias no Sul, que também estariam associadas à permanência do El Ni¤o até agosto. ‘‘Não há previsão de inundações no sertão, mas também não há mais expectativas de chuva, já que a época já passou’’, acrescentou.
O prefeito de Boa Vista, no sertão da Paraíba, Edivan Pereira Leite (PMDB), acusou ontem a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) de estar agindo de forma ‘‘criminosa e desumana’’ ao autorizar a liberação de apenas 24 cestas básicas para o município, suficiente para atender 1% de sua população rural. O critério da Sudene é distribuir um número de cestas equivalente a 10% da população rural. A maioria dos prefeitos pernambucanos tem reclamado, pois as cestas seriam insuficientes para atender os flagelados da seca.

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