Brasília, 24 (AE) - Nem o governo nem o presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), têm pressa de votar a medida provisória (MP) que fixa o salário mínimo em 151 reais a partir do dia 3. Depois de um mês de embates, ACM e o presidente Fernando Henrique Cardoso voltam a atuar no mesmo campo. O Palácio do Planalto e o PFL vão operar para que o assunto esfrie, evitando a guerra de votos no plenário.
"Não é um bom mínimo, mas não vamos lutar para o derrubar", antecipa o deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA), parceiro fiel de ACM em todas as lutas. A dificuldade de ACM é de que a prerrogativa de pôr a MP do mínimo na pauta de votações do Congresso é exclusiva do presidente do Senado. Conscientes disso, as oposições ensaiam o coro para forçar a votação. Mas, com a ajuda da Executiva Nacional do PFL, ACM tem garantidos pelo menos mais dez dias na estratégia de ganhar tempo.
O partido que comandou a briga pelo mínimo de US$ 100 só vai definir o que pensa do salário de 151 reais na quinta-feira (30). "A batata quente está nas mãos da executiva", resume um influente pefelista, ao lembrar que a direção nacional do partido tomou para si a palavra final sobre o assunto. Como quinta-feira é dia de quórum tradicionalmente baixo, com retorno dos parlamentares aos Estados, é remota a possibilidade de uma reunião do Congresso para tratar de mínimo.
"O PFL está no fio da navalha", reconhece o deputado Luiz Antônio de Medeiros (PFL-SP), que se associou a ACM na batalha para engordar o reajuste. Mas Medeiros também está cauteloso. Tanto que não engrossa o coro petista da votação já da MP do mínimo. "Vou conversar com todos os chefes do partido sobre que caminhos poderemos seguir para não perder a coerência", explica o deputado. O desafio de ACM e da executiva pefelista agora é o de esboçar uma reação que não seja fraca a ponto de parecer recuo, nem tão forte que possa conduzir à guerra que não interessa a ninguém.
Confortável na posição de quem tem o maior número de aliados, o Planalto trata de lembrar que teve a solidariedade expressa dos líderes do PSDB, PMDB, PTB e PPB. Disfarça, assim, o velho jogo para empurrar o assunto com a barriga até o próximo reajuste. Tudo o que o governo quer é que esta MP do mínimo tenha o mesmo destino das anteriores, que não foram votadas.
Mas não é o que diz o líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM). O tucano avisa que o governo não fugirá do voto e lembra que as palavras do presidente foram "claras como água". Referiu-se às palavras de Fernando Henrique na reunião do anúncio do mínimo com os líderes aliados. Diante da cobrança de lealdade do presidente, os líderes governistas estão convencidos de que quem eventualmente votar contra a MP do mínimo estará automaticamente fora do governo. Nem por isso as oposições e os aliados descontentes com os 151 reais estão dispostos a deixar que o assunto morra. Ao contrário, a intenção desse grupo é tentar transformar a comissão especial do mínimo na Câmara no palco da resistência. Pretendem atrelar a discussão da MP à votação, na próxima semana
do teto salarial de R$ 11.500,00 para o funcionalismo público. "O mínimo aumentou 15 reais, enquanto que o teto proporcionará reajuste de 45%; a pressão social será muito grande", prevê o líder do PT, deputado Aloízio Mercadante (SP).
Hoje, em frente do plenário, os deputados Paulo Paim (PT-RS), Caio Riella (PTB-RS) e Medeiros (PFL-SP) puseram fogo no "Diário Oficial" da União (DOU), que publicou a medida provisória (MP) que fixou o novo mínimo. "Protesto contra a forma truculenta e ditatorial com que o Executivo atropelou o Congresso", disse Paim.
Ainda irritado com a estratégia do governo que atropelou os trabalhos da comissão especial, o relator do projeto, deputado Eduardo Paes (PTB-RJ), prometeu para a próxima semana um relatório apontando novas fontes de financiamento para o aumento do mínimo. "A minha seriedade até agora ajudou o governo; continuarei sendo sério, mas vou mostrar que é possível um aumento maior do que esses 15 reais", disse Paes.

mockup