Planalto decide não comentar declarações de militares
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quarta-feira, 29 de dezembro de 1999
Por Isabel Braga e Rosa Costa 
Brasília, 28 (AE) - Enquanto oficiais da reserva reuniam-se em almoço para demonstrar sua irritação com a demissão do ex-comandante da Aeronáutica Walter Werner Brauer e criticar o presidente Fernando Henrique Cardoso, autoridades do primeiro escalão do Executivo fingiram ignorar o ato, negando-se a comentar os fortes pronunciamentos dos militares, e se esforçaram por minimizar a importância do episódio.
Ninguém fala oficialmente sobre o assunto, mas colaboradores próximos ao presidente garantem que, embora ainda não se possa descartar uma crise na área militar, a melhor tática é deixar o assunto esfriar. A única iniciativa concreta foi do novo comandante da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista, que enviou no último dia 23 um fax ao presidente do Clube da Aeronáutica recomendando que não fossem convidados militares da ativa para o almoço. Assessores do comandante confirmam o documento, mas não revelam os motivos dessa recomendação.
Segundo fontes do primeiro escalão do governo, ainda é cedo para avaliar a extensão do estrago provocado pela demissão de Walter Bruer, mas o fato de os militares da ativa, especialmente os do Alto Comando da Aeronáutica, não terem aderido ao ato de hoje é uma prova inequívoca de força do novo comandante.
É consenso que os militares que usaram a tribuna hoje não são as lideranças mais importantes do setor, o que gerou certo alívio no primeiro escalão do governo. O próprio ministro da Defesa, Élcio álvares, comentou com assessores próximos - em chamadas telefônicas do Espírito Santo, onde está de férias com a família - que essa pouca representatividade revela uma reação inócua da área militar, que não merece maior atenção.
"Estamos num País que sabe seu destino e não são discursos de (Jair) Bolsonaro e (Ivan) Frota que merecem repercussão", disse álvares, referindo-se a alguns dos oradores mais inflamados, segundo relato de um colaborador. "É preciso colocar o episódio em sua verdadeira dimensão." O descanso do ministro, afirma a fonte, é uma prova de que não há preocupação com crise militar. "Os militares são cumpridores da lei e da Constituição Federal e não tenho dúvidas de que os militares brasileiros estão conscientes de seu papel", tem dito álvares, procurando demonstrar tranquilidade.
Para evitar que a rebeldia dos chamados "militares de pijama" venha a influenciar seus colegas da ativa, o ministro trabalha para contentar a Força. Apesar do recesso, álvares acertou com o ministro interino da Fazenda, Amaury Bier, a liberação dos recursos restantes do Orçamento do ministério, num total de R$ 51 milhões. A verba será destinada ao custeio do Sistema Integrado de Vigilância da Amazônia (Sivan), uma das reivindicações da Aeronáutica.
Nas conversas que manteve hoje, Élcio álvares destacou que os verdadeiros comandantes das Forças Armadas passarão a virada do ano ao lado do presidente Fernando Henrique. "São militares constitucionalistas e legalistas", insistiu, referindo-se aos comandantes do Exército, Gleuber Vieira, da Marinha, Sérgio Chagastelles, além de Baptista, que participarão da festa de reveillon no Forte de Copacabana. Carlos Baptista começou a trabalhar hoje. Segundo o Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (Cecomsaer), o tenente brigadeiro-do-ar passou todo o dia no seu gabinete, em despachos internos. "O brigadeiro está começando a tomar conhecimento dos deveres do cargo", comentou uma fonte da Aeronáutica.
CRÍTICA - O deputado José Genoíno (PT-SP) afirmou hoje não acreditar na existência de crise militar no País. "É um assunto localizado, na área da reserva da Aeronáutica", comentou. O deputado, entretanto, criticou duramente os pronunciamentos dos militares a favor do impeachment de Fernando Henrique. "Isso não é assunto para militar, mas para os partidos, a sociedade, o Congresso Nacional", argumentou. Segundo Genoíno, é certo a Aeronáutica pleitear a manutenção do controle de decisões da Embraer, "mas é preciso agir por meio de canais institucionais". "É uma aventura ficar fazendo pronunciamentos em clubes militares, nós já passamos dessa fase", comentou o petista. Para Genoíno, o presidente Fernando Henrique deveria encontrar urgentemente um substituto para o ministro Élcio álvares, que considera um ministro "fraco". "Um ministro com força política e militar, que recupere a autoridade perante os militares, para evitar está onda de pronunciamento", disse Genoíno, acrescentando: "Não vejo com bons olhos os pronunciamentos militares."


