São Paulo, 23 (AE) - É grande a chance de o governo virar o placar a seu favor nesta semana que inspira cautela no mercado financeiro, dadas as expectativas crescentes em torno das manifestações populares que devem ocorrer em Brasília. Na capital federal já estão concentrados os produtores rurais - patrocinadores do "caminhonaço" que já dura uma semana - e na quinta-feira deve chegar a Marcha dos 100 Mil.
Nos últimos dois dias da semana passada, porém, o governo começou a minar o movimento dos ruralistas e saiu vitorioso pelo menos num primeiro "round" travado com o mercado financeiro, que escolheu o câmbio como escudo.
Dois fatos favorecem a posição do governo neste início de semana:
1) o mercado está, ao menos temporariamente, anestesiado com uma injeção extraordinária de hedge cambial aplicada com precisão pelo Banco Central na sexta-feira, mas com efeitos colaterais que podem se manifestar nesta semana, dependendo dos prejuízos que os bancos mais afoitos por arbitragens poderão contabilizar se o dólar não reagir;
2) a pauta da Câmara está trancada pelo menos até amanhã (24), graças à urgência constitucional do projeto de Defensoria Pública que precisa ser votado para abrir caminho às demais votações, inclusive, a do substitutivo que prevê a renegociação das dívidas agrícolas com perdão de 40% do valor. Enquanto o plenário da Câmara está com a pauta obstruída e não volta à ativa, o Executivo avança e com grande possibilidade de abortar ou arrefecer - e muito - o movimento capitaneado pela bancada ruralista.
Enquanto o Banco Central dedica-se a administrar as expectativas do mercado - talvez menos exacerbadas após a queda violenta do dólar registrada na sexta-feira -, o governo em peso deverá estar mobilizado para conter um reforço do movimento ruralista. Mas, providências neste sentido já foram tomadas.
Nesta semana, explica o jornalista Fredy Krause, o governo deve editar a MP alterando a sistemática de refinanciamento das dívidas agrícolas e o Conselho Monetário Nacional deve aprovar "ad referendum" dois votos: um que modifica a equilização da taxas de juros das dívidas em geral e outro que determina o reescalonamento das dívidas dos cafeicultores.
Outras importantes decisões do governo para chegar a um entendimento com os ruralistas estão em curso:
1) já foi prorrogado o prazo de adesão dos produtores ao Programa Especial de Saneamento de Ativos, que lhes permitirá renegoc iar os débitos até 31 de dezembro;
2) nesta semana serão liberados R$ 200 milhões para pré-comercialização do café, que permitirá aos cafeicultores estocarem o produto por seis meses, aguardando momento mais favorável para negociação;
3) foi regulamentado o Programa Nacional de Apoio à Agricultura Familiar (Pronaf), o que autoriza as instituições financeiras a liberarem imediatamente recursos para atendimento de pequenos produtores;
4) deve ser iniciada a liberação de recursos do Programa de Revitalização das Cooperativas (Recoop).

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