Pistoleiros matam 2 sem-terra em PE
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segunda-feira, 09 de junho de 1997
Agência Estado Recife e Pedro Canário 
Haverá reação, avisou o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST-PE), Jaime Amorim, ao comentar a revolta dos trabalhadores com o massacre ocorrido na madrugada de anteontem, no Engenho Camarazal, no município de Nazaré da Mata, a 72 quilômetros do Recife, quando dois trabalhadores sem terra foram mortos e outros seis ficaram feridos, inclusive duas crianças. Não vamos mais fazer ocupações desarmados nem em pequenos grupos.
Vinte e oito sem-terra que haviam invadido a área de 1.400 hectares, na quinta-feira, foram surpreendidos, enquanto dormiam, por cerca de 30 homens armados em quatro veículos. Eles chegaram atirando e sem olhar para quem. Ninguém teve chance de defesa, afirmou Sebastião de Andrade, 49 anos, que se encontra internado no Hospital da Restauração, no Recife, ainda com risco de perder um braço que teve uma artéria atingida por uma bala.
Os corpos dos trabalhadores Inácio José da Silva, 20 anos, e de Pedro Augusto da Silva, 56 anos, que estavam desaparecidos, foram encontrados ontem pela polícia, no município de Pau dAlho, a 20 quilômetros de onde ocorreu o conflito. De acordo com o laudo do IML, Inácio morreu de hemorragia interna provocada por um tiro de espingarda 12 nas costas. Pedro sofreu fratura craniana por instrumento contundente e uma facada no pescoço com lesões de vasos, musculatura e nervos.
As irmãs Érica Maria e Jéssica do Nascimento, de um ano e três meses e 6 anos, respectivamente, também estão internadas no Hospital da Restauração. Érica teve ferimentos leves no tórax e uma bala transfixante na coxa e se encontra fora de perigo. Jéssica inspira mais cuidados, de acordo com o chefe da emergência, João Veiga, porque levou um tiro no tórax e está com os dois pulmões drenados, devendo ficar sob observação pelo menos durante 72 horas. A mãe das crianças, Marluce Maria da Silva, 48 anos, Oscar José de Santana, 26, e Antonio Pedro da Silva, 56, também feridos, foram socorridos e liberados ontem.
Os sem-terra acusam o dono do engenho, Rui Ramos, de ser o mandante do crime. Segundo Amorim, os fornecedores de cana-de-açúcar vinham ameaçando revidar invasões com ataques. O engenho havia sido vistoriado há cerca de 15 dias pelo Incra, que no final da tarde de ontem divulgou que 544 hectares da área são improdutivos.
Julgamento - O advogado Aton Fon Filho, defensor do líder do MST, José Rainha Júnior no julgamento por duplo homicídio previsto para começar hoje, pediu no início da noite de ontem o adiamento do júri ao juiz de Pedro Canário (ES), Sebastião Mattos Mozine. Aton quer o adiamento porque pelo menos cinco pessoas que estão entre os que podem ser sorteados para ser jurados no caso não seriam qualificados para isso e porque provas foram anexadas ao processo sem que a defesa tivesse conhecimento.
Segundo o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), há dois jurados com relação de parentesco com as vítimas, e outros dois que são cunhados, o que é proibido. O deputado também afirmou que a defesa não foi informada oficialmente da inclusão de duas fitas de vídeo a serem usadas no julgamento pela acusação.


