Marta Medeiros
De Maringá
A sem-terra Francisca Pereira dos Santos, 56 anos, levou um tiro nas costas ontem pela manhã durante um ataque de pistoleiros à Fazenda Santa Rosa, no município de Marilena (79 quilômetros a noroeste de Paranavaí). A propriedade foi invadida na manhã de sábado por um grupo de 70 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O clima é tenso na região. Cerca de 200 policiais militares de diversos comandos das regiões Norte e Noroeste estão na área.
Nenhum pistoleiro havia sido preso ou identificado ontem. Eles atearam fogo em quatro veículos do MST e também queimaram pertences das famílias. Um outro sem-terra também teria saído ferido durante o ataque, mas preferiu fugir a procurar ajuda no hospital de Marilena.
A filha de Francisca, a assentada Sônia de Fátima Rodrigues Santos, 40, da Fazenda Sebastião Camargo Filho, de Marilena, estava ontem na Santa Casa de Paranavaí e contou à Folha de Londrina/Folha do Paraná, por telefone, que os pistoleiros atacaram de forma covarde os sem-terra. A mãe de Sônia levou um tiro nas costas quando tentava fugir. A bala entrou pelo pulmão esquerdo e se alojou no abdômen. O estado de Francisca era considerado gravíssimo pelos médicos.
Sônia disse que o despejo poderia ter sido promovido pela PM. ‘‘Pelo menos a gente sabe que a políca está pela lei enquanto os pistoleiros vão para matar.’’ Para ela, o grupo deveria estar ‘‘muito bem preparado’’ porque o despejo forçado da fazenda aconteceu 24 horas depois da invasão.
Segundo Ireno Prochnowzz, da coordenação estadual do MST, a violência contra as famílias foi incitada pelo próprio governo do Estado. ‘‘Há uma semana estamos avisando que a região Noroeste se transformou em um barril de pólvora e o governo não toma providências’’, afirmou o coordenador. Ele lamentou a ação dos pistoleiros e disse que o MST não tem condições e nem quer se armar. ‘‘A violência não vai resolver nada’’, ressaltou Prochnowzz.
A região Noroeste é uma das mais conflituosas do Estado. Cerca de duas mil famílias do MST esperam pelo assentamento. Nos últimos dois meses, os sem-terra intensificaram o ritmo das invasões, provocando protestos por parte dos ruralistas. Segundo Prochnowzz, coordenadores do MST seguiram ontem a Marilena para tentar acompanhar a situação e obter informações sobre o conflito.
Em uma das últimas notas, no início deste mês, a União Democrática Ruralista (UDR) do Paraná avisou o governo e a Secretaria do Estado de Segurança Pública que estava formando grupos para ‘‘executar com suas próprias forças as reintegrações de posse’’. Em um ‘‘pacto’’ feito na UDR, os produtores afirmaram que se responsabilizariam ‘‘pelas ações executadas pelos grupos regionais’’. Segundo informações da Delegacia de Nova Londrina (100 quilômetros ao norte de Paranavaí), a Polícia Civil deve abrir inquérito hoje para apurar os fatos.

mockup