Pior já passou mas situação exige cautela, avaliam especialistas
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sexta-feira, 02 de abril de 1999
Por Rita Tavares 
São Paulo, 03 (AE) - Passados 78 dias da mudança na política cambial, que fez com que a cotação do dólar perante o real disparasse e, com isso, desorganizasse toda a economia do País, os economistas são unânimes em afirmar que o pior da crise já passou.
Os índices de inflação abaixo dos previstos, divulgados em março, foram apenas uma das boas notícias do mês. Com uma recuperação da economia mais rápida do que a imaginada, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, alertou, contudo, contra os possíveis riscos desse "otimismo exacerbado".
"O Brasil conseguiu vencer a desconfiança internacional", disse o professor Eduardo Gianetti da Fonseca, da Universidade de São Paulo (USP), explicando que o "período crítico" que veio após a desvalorização foi superado.
Disso, os economistas consultados não têm dúvidas. Todos
porém, alertaram: o perigo não acabou, apenas é menor, mas exige uma atuação sólida do Banco Central no gerenciamento da política monetária, principalmente no ritmo de queda das taxas de juros.
O fôlego ganho em março veio em decorrência de quatro boas notícias: 1) o IGP-M de 2,8% ficou abaixo das previsões mais otimistas, seguindo o bom desempenho do Índice de Preços ao Consumidor (IPC-Fipe) que foi de 1,41%; 2) o resultado do leilão de títulos prefixados foi bem sucedido; 3) o Brasil deverá receber US$ 4,9 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI), relativos à segunda parcela do programa de ajuda ao País; 4) no comunicado divulgado após a aprovação dessa parcela, o FMI afirma que as taxas de juro real brasileiras deverão ficar "significativamente mais baixas em 1999 do que se esperava antes da desvalorização."
As notícias são boas, mas o Brasil ainda tem problemas muito sérios para resolver. A reforma fiscal encabeça a relação citada pelos economistas. "O governo fez um pacote band-aid", afirmou o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, alertando para a necessidade de um enfrentamento definitivo do tema.
Aumentos - Para Loyola, o curto prazo, entre abril e maio, a inflação ainda pode surpreender, indo além dos índices de março. Isso porque o atacado ainda não repassou para o varejo aumentos de preços, mas também porque novos aumentos devem ser anunciados em breve.
Para Antônio Corrêa de Lacerda, presidente do Conselho Regional de Economia, "do lado do sistema financeiro, o pior da crise passou." Ele diz que o País já voltou aos eixos, mas a economia real ainda está sofrendo. Lacerda lembra que o nível de atividade industrial em São Paulo caiu 8% em fevereiro em relação ao mesmo mês de 1998.
Segundo Lacerda, o primeiro semestre deste ano ainda será extremamente negativo, porque a economia real não reage com a mesma rapidez do mercado financeiro. "Mas a estabilidade no mercado financeiro traz o mínimo de previsibilidade de que o empresário necessita para trabalhar."
Para Luciana Fagundes, economista do Lloyds Bank, "a recuperação está se dando de forma mais rápida do que se previa, mas o perigo não passou." É preciso cautela e um bom gerenciamento por parte do Banco Central no controle da política monetária. Esse otimismo não se deve propagar no BC.
Luciana concordou que o impacto da desvalorização nos preços ainda não foi totalmente repassado para a inflação. Segundo ela, os índices de preços no atacado indicam uma inflação maior que deverá ser repassada gradualmente para o varejo, ao longo do ano. "O País ainda não deve se ver de forma tranquila", avaliou a economista.


