Pinochet se mostra mais conciliador em carta-documento
Santiago, 14 (AE-ANSA) - O ex-ditador Augusto Pinochet, em uma carta-documento cujo conteúdo foi conhecido hoje (14), afirmou que na questão das violações aos direitos humanos exige-se das Forças Armadas chilenas "respostas a indagações que elas não podem responder nos termos que são exigidos".
Pinochet expressou esta posição na carta que enviou de Londres, onde está sob prisão domiciliar, ao presidente do Senado, Andrés Zaldívar, que a leu hoje no Congresso ante representantes de diferentes comitês parlamentares.
Na carta, Pinochet acrescenta que considerou ser conveniente dar seu testemunho quando "se observam no país alentadores sinais de procura por estancar feridas do passado que não foram possíveis cicratizar".
Esse foi o segundo documento público de Pinochet desde que foi detido em 16 de outubro em Londres por ordem da justiça espanhola, que pede sua extradição para julgá-lo.
No primeiro documento Pinochet defendeu abertamente o golpe de Estado de 1973, origem da ditadura que encabeçou até 1990, enquanto que na carta divulgada hoje ele o justificou em termos menos enfáticos.
Comentaristas chilenos afirmam que o primeiro documento foi redigido por seus assessores políticos e que o último, mais conciliador, foi escrito por assessores militares.
A referência a "alentadores sinais" foi interpretada em ambientes políticos como um apoio implícito à Mesa de Diálogo promovida pelo Ministério da Defesa, com a participação de chefes militares e de alguns advogados dos direitos humanos.
A Mesa de Diálogo foi, entretanto, rechaçada por Familiares dos Detidos Desaparecidos como uma tentativa de garantir a impunidade dos responsáveis por violações dos direitos humanos durante a ditadura.
Pinochet, em sua carta, se define como "o ator que, em vista do colapso dos consensos básicos, da quebra da institucionalidade e dos requerimentos majoritários dos principais setores de nossa sociedade, coube encabeçar a importante missão de assumir a condução política do país".
"Nessa perspectiva - continuou - às Forças Armadas e ao corpo de Carabineiros têm sido imputadas determinadas ações ocorridas num ambiente de violência e luta armada difícil de compreender agora com as concepções de vida que no mundo e no Chile foram impostas, exigindo deles respostas a indagações que não podem responder nos termos que são exigidos".
"Não obstante, conhecendo seu firme compromisso com os interesses nacionais - acrescentou na carta ao democrata-cristão Zaldívar - não tenho a menor dúvida de que (as Forças Armadas) farão todos os esforços necessários que contribuam para a unidade dos chilenos".
"Tenho a certeza - afirmou - que o farão com a maior propriedade os que passaram por suas fileiras, testemunhas de momentos que para as atuais gerações não é fácil de reconstituir".
Pinochet sublinhou finalmente que na revisão histórica "é imperativo preservar a honra de nossas instituições, manter o apoio da sociedade e evitar julgamentos desonrosos".
O ex-ditador acrescentou que "a serena reflexão à qual me vi obrigado nestes longos e duros meses, longes da Pátria, me permite estar em condições de emitir um juizo que só busca contribuir para concórdia nacional".





