Pinochet regressou a um Chile mudado4/Mar, 13:58 Por Eva Vergara Santiago, 04 (AE-AP) - O general Augusto Pinochet, que sempre combateu implacavelmente os esquerdistas, encontra agora um país que durante sua forçada ausência elegeu um presidente socialista. Esta não é a única mudança que Pinochet encontrou no Chile ao regressar ontem depois de ficar 16 meses detido em Londres. Agora, ele está também diante da possibilidade de ser julgado por abusos cometidos durante seu regime contra a esquerda. Pinochet sempre combateu os esquerdistas. Em 11 de setembro de 1973, ele derrubou num sangrento golpe de Estado o presidente marxista Salvador Allende, colocou na ilegalidade os partidos políticos e lançou uma dura repressão contra os seguidores de Allende. Acostumado a mandar e a impor sua vontade, ser obedecido e até temido, ele verá no próximo sábado converter-se em presidente um obstinado rival: o socialista Ricardo Lagos. Apesar de desde sua casa-prisão londrina ter tentado promover um renegado democrata-cristão como candidato presidencial, nada pôde fazer para impedir o triunfo de Lagos nem para evitar que a direita o relegasse durante a campanha eleitoral, que terminou em janeiro. Lagos será empossado diante do plenário do Congresso, que Pinochet integra como senador vitalício, e apesar de o governo ter-lhe sugerido a não assistir a troca de mando, muitos acreditam que ele poderá estar presente e até reincorporar-se ao Congresso. O cargo senatorial é irrenunciável, mas no Congresso tramita um projeto de lei que permitiria ao ex-ditador renunciar, mantendo o salário e a imunidade. Alguns dizem que seria uma lei "feita à medida para Pinochet". O ex-ditador, de qualquer forma, descobriu que já não é mais intocável. Logo que o secretário do Interior britânico, Jack Straw, o colocou em liberdade por considerar que o general não tinha condições de enfrentar um julgamento, um grupo de advogados pediu à Corte de Apelações que suspendesse sua imunidade, a fim de poder processá-lo. O juiz Juan Guzmán, que investiga 61 denúncias criminais contra ele - a 61ªfoi apresentada hoje (04) -, ordenou que Pinochet seja submetido a exames psicológicos e psiquiátricos a fim de determinar se pode dar início ao processo. As leis chilenas, diferentemente das britânicas, só eximem de processo os dementes. Os médicos britânicos disseram que Pinochet sofria de lápsos de memória e que tinha dificuldade para expressar-se verbalmente, razões que o impediriam de acompanhar adequadamente um julgamento. Desde 1998, Pinochet foi denunciado 61 vezes por assassinato, tortura e desaparições, sendo que todos os casos estão sendo investigados por Guzmán, que revolucionou a justiça chilena ao deter e processar o general retirado Sergio Arellano Stark, um enviado de Pinochet responsabilizado pela morte de mais de 70 opositores depois do golpe militar. Os ares de renovação da justiça chilena coincidiram com a detenção de Pinochet em Londres, em outubro de 1998, e com a aposentadoria de alguns juízes que haviam sido designados durante seu governo. Atualmente existem mais de 50 militares da ativa e retirados processados por violações dos direitos humanos, incluindo cinco generais. Apesar de os ativistas dos direitos humanos e familiares das vítimas da ditadura terem lutado por duas décadas e meia pelo julgamento dos repressores, incluindo Pinochet, os processos só foram agilizados depois da detenção do ex-ditador. As mudanças no Chile alcançaram também as Forças Armadas, que concordaram em integrar uma "mesa de diálogo" para determinar o paradeiro de detidos-desaparecidos, impulsionada há seis meses pelo governo de Eduardo Frei e que provavelmente continuará funcionando depois da chegada de Lagos à presidência.