Pinochet não terá de ouvir sentença; Thatcher o defende
Londres, 06 (AE-ANSA) - Às vésperas da audiência marcada para sexta-feira, na qual a Justiça britânica anunciará de aceita ou não o pedido feito pela Espanha para extraditar o general da reserva chileno Augusto Pinochet, o juiz Ronald Bartle isentou o ex-ditador da obrigatoriedade de estar presente no tribunal de Bow Street, em Londres, para ouvir a sentença.
"A saúde do general Pinochet poderia abalar-se ainda mais se fosse obrigado a comparecer para a audiência", disse Bartle ao justificar sua decisão.
Pinochet cumpre prisão domiciliar em Londres desde 16 de outubro do ano passado, quando a polícia britânica atendeu a um pedido internacional de prisão emitido pela Justiça da Espanha, que pretende extraditá-lo e julgá-lo por crimes contra a humanidade.
O magistrado acrescentou ter levado em conta o testemunho do médico pessoal de Pinochet em Londres, Michael Loxton, segundo o qual o ex-ditador, de 83 anos, sofreu dois pequenos acidentes vasculares cerebrais, nos dias 9 e 25 de setembro, e está à beira de um terceiro derrame, cujas consequências seriam imprevisíveis. Após os ataques, assegurou Loxton, o paciente passou a apresentar falhas de memória, distúrbios da fala, tremores e enjôos.
Grupos de defesa de direitos humanos, porém, atribuem os relatos sobre os problemas de saúde de Pinochet a uma estratégia da defesa do general para convencer o secretário de Interior britânico, Jack Straw, a permitir a volta dele ao Chile por "razões humanitárias" - benefício penal previsto pela lei da Grã-Bretanha.
Entre as mais veementes defensoras da libertação de Pinochet está a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, que, pela primeira vez desde 1990, discursou hoje num congresso de seu Partido Conservador em Blackpool, no norte do país.
"O que a esquerda não pode esquecer nem perdoar é o fato de Pinochet ter salvado o Chile e ter ajudado a salvar a América do Sul", disse Thatcher. Ela também acusou o governo do Partido Trabalhista liderado por Tony Blair. "Este é um governo que desacredita e desonra a Grã-Bretanha. Os srs. Blair e Straw colaboram com a Espanha mesmo pondo em risco as nossas relações com o Chile."
Ela diz reconhecer que houve abusos no sangrento golpe liderado por Pinochet em 1973 contra o então presidente socialista Salvador Allende. Mas argumenta que o ex-ditador não pode ser responsabilizado por eles. "Por esse raciocínio, Blair e Straw teriam de aceitar a responsabilidade criminal por todos os abusos cometidos em prisões e delegacias de polícia através do Reino Unido", ironizou.
Na véspera, Thatcher já havia causado polêmica ao declarar, numa reunião com conservadores escoceses: "Durante toda minha vida, todos os problemas provêm da Europa Continental e todas as soluções têm saído dos países de língua inglesa: a Grã-Bretanha segue ocupando um papel de importância no mundo e somos praticamente o melhor país da Europa."





