Pinochet lança ofensiva em meios de comunicação
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quarta-feira, 28 de julho de 1999
Por Gustavo González, da IPS (assinatura obrigatória) 
Santiago (AE-IPS) - A ofensiva nos meios de comunicação que o ex-ditador Augusto Pinochet lançou em Londres complica sua situação processual e acaba com a possibilidade do governo do Chile conseguir sua libertação apelando para razões humanitárias. Funcionários do governo, dirigentes oficialistas e inclusive políticos de direita reprovaram em Santiago as declarações que o ex-ditador (1973-1990) fez no jornal britânico Sunday Telegraph no domingo passado.
A entrevista foi o ponto de partida de uma campanha de imprensa que os assessores aconselharam a Pinochet, que enfrentará a partir de 27 de setembro um julgamento de extradição para a Espanha no tribunal londrino de Bow Street. O ex-ditador e atual senador vitalício de 83 anos sustentou em seu diálogo com o Sunday Telegraph que é um "prisioneiro político" e que foi "sequestrado" pelas autoridades britânicas, que atropelaram sua imunidade diplomática. Além disso, ele disse que não ordenou nem teve conhecimento dos 3.198 crimes contra os direitos humanos, nem das torturas cometidas nos quase 17 anos de sua ditadura e que motivaram em 1997 a abertura de um processo contra ele na Espanha. O ex-governante e ex-comandante do Exército se declarou disposto a só aceitar responsabilidade política pelos crimes contra a humanidade registrados durante seu governo. Ele também insistiu que é vítima de uma vingança política.
A virtual declaração de rebeldia de Pinochet perante os tribunais britânicos e o julgamento de extradição para a Espanha tornou muito difícil a possibilidade do governo de Eduardo Frei insistir em sua libertação por razões humanitárias. A advertência foi feita pelos ministros Juan Gabriel Valdés, das Relações Exteriores, Carlos Mladinic, da Secretaria Geral do Governo, e José Miguel Insulza, da Secretaria Geral da Presidência e ex-chanceler. Mas, além disso, a atitude do ex-ditador debilita o propósito governamental de instalar uma contenda de competência com a Espanha em torno da Convenção Internacional sobre a Tortura e reclamar para o Chile o direito de julgar Pinochet. O chanceler Valdés prepara para esta semana uma apresentação formal perante seu homólogo espanhol, Abel Matutes, para propor uma arbitragem em torno desta possível contenda, mas advertiu que a gestão se debilitou com a atitude do ex-ditador.
A Câmara dos Lordes resolveu em 24 de março que Pinochet só pode ser julgado internacionalmente por atos de tortura cometidos a partir de 8 de dezembro de 1988, data em que a convenção foi ratificada pela Grã-Bretanha. O ex-ditador e ex-camandante do Exército chileno já cumpriu nove meses de prisão em Londres, desde sua detenção a pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón em 16 de outubro de 1998 em uma clínica particular da capital britânica. Em sua entrevista ao Sunday Telegraph, Pinochet tentou contestar sua imagem internacional de violador dos direitos humanos, ao afirmar que não ordenou torturas, fuzilamentos sumários nem desaparecimentos forçados enquanto foi ditador. O general ancião sustentou que não controlava os atos da Direção de Inteligência Nacional (DINA), nem da Central Nacional de Informações (CNI), organismos repressivos que dependem diretamente do comando do Exército.
Tais afirmações foram recebidas com incredulidade por importantes políticos oficialistas, como o ex-mandatário Patricio Aylwin (1990-1994) e Ricardo Lagos, candidato oficialista para as eleições presidenciais de 12 de dezembro. Insulza recordou que em alguma ocasião ele assegurou que "no Chile não se move uma folha sem que eu o saiba", mas "acontece que agora a tempestade sopra ao redor dele e todas as folhas estão voando", comentou o ministro. Mladinic e o presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Montes, disseram que as declarações de Pinochet foram um frustrado "relançamento político" do ex-ditador e recomendaram que ele se mantenha em silêncio. O deputado Alberto Espina, presidente do direitista Partido Renovação Nacional, indicou, em sua condição de advogado, que o mais prudente para uma pessoa submetida a um processo é se abster de declarações que possam ser usadas contra ele. Mireya García, secretária do Agrupamento de Familiares de Detidos-Desaparecidos, sustentou que a tentativa de Pinochet de iludir sua responsabilidade penal e judicial nos crimes repressivos constitui uma aberração. A dirigente acusou o ex-ditador de mentir e recordou que o próprio Pinochet justificou em uma ocasião as práticas de tortura, afirmando que às vezes é necessário "apertar um pouco a mão" para obter informações.


